domingo, 6 de junho de 2010

Suicidas ilustres 02: Primo Levi

Trabalhando em pronto-socorro às margens da rodovia Anchieta, tive a infeliz oportunidade de testemunhar a reação de pessoas que, sobrevivendo a graves acidentes, testemunharam a morte inesperada de parentes próximos, algumas vezes de toda a família. Incapazes de lidar com o absurdo da situação, de por puro acaso continuarem vivendo, começam a se questionar “porque eu?”, “em que fui melhor do que os outros para escapar?”, “que fiz para merecer mais?”. Essas pessoas podem passar anos, décadas, não apenas se questionando, mas sentindo-se culpadas por terem sobrevivido, culpadas por viver, culpadas por sentirem prazeres que foram negados a seus entes queridos.

Primo Levi, escritor italiano, foi um dos 23 sobreviventes entre os 649 judeus que foram encaminhados para Auschwitz com ele em abril de 1944. Libertado em janeiro de 1945, perambulou durante o ano pela Europa oriental, retornando a Turim. Sua trajetória então, foi representativa de um sobrevivente. Em seus livros, denunciava os acontecimentos dos campos. No início, as pessoas, fartas de tanto sofrimento, não queriam escutar. Assim se confirmou o terrível sonho premonitório das vítimas: que ninguém as ouviria, e se ouvissem, não acreditariam. Quando começou a ser ouvido, passou a ser atormentado pela vergonha e pela culpa de ter sobrevivido, agravada em seu caso pelo constrangimento da fama. Suas palavras:
“Nós, que sobrevivemos aos campos, não somos as verdadeiras testemunhas. Esta é uma idéia incômoda que passei aos poucos a aceitar, ao ler o que os outros sobreviventes escreveram, inclusive eu mesmo, quando releio meus textos após alguns anos. Nós, sobreviventes, somos uma minoria não só minúscula, como também anômala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo do poço. Os que o fizeram, e viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram mudos”

Em 1987, aos 68 anos, depressivo, telefonou ao Rabino da sinagoga de Roma, confidenciando suas angústias e motivos. Cometeu o suicídio atirando-se do terceiro andar do prédio onde nasceu e no qual morou por toda a vida.

7 comentários:

  1. A culpa é um dos piores sentimentos que podemos carregar no íntimo. É sorrateira e altamente corrosiva e vai nos tirando a alegria de viver. Ser bipolar sempre me fez sentir culpa por minhas atitudes taxadas de "egocêntricas" e irresponsáveis, pois sempre fizeram as pessoas sofrerem por elas mesmas (por tomarem como pessoais meus atos)ou por mim (por me amarem e me verem tão perdida). Me confundem com a doença. Hoje em dia convivo com a culpa, mas de forma mais equilibrada. Alguns anos de análise me ajudaram muito.
    Meu querido amigo, apesar de vc nunca mais ter ido ao meu blogue, estou sempre por aqui apreciando seus textos inteligentes e interessantes.
    Vá tomar um chocolate comigo, sim?
    Um domingo feliz e relaxante para vc.
    Beijos.

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  2. zilimanzano@terra.com.br07 junho, 2010

    Culpa é ego? Testando Magali

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  3. zilimanzano@Wterra.com.br07 junho, 2010

    Não consegui entender até agora como fiz tudo certinho para participar do blog entrei em dois lugares e não consigo postar comentários com o zilimanzano@terra.com.br

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  4. É interessante o conceito de culpa na religião cristã, Santo Agostinho um dos maiores teologos critão diz que "A culpa de perder o paraizo está plasmado na alma do ser humano até que ele encontre a Cristo". Conheço muitas pessoas que conseguiram superar traumas e de se sentirem culpadas por algum motivo, com a mensagem Cristã, Um dos textos antigos da sagrada palavra de Deus diz que as nossas culpas estavam sobre o Messias, esta é uma discussão antiga Dr. o homem sempre se sentiu culpado, um grande filosofo moderno disse que, o ser humano se sente culpado desde sua existencia, Gianinni Vattimo, Abração,,,

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  5. Maria Rosa07 junho, 2010

    O sentimento de culpa é terrível porque se tenta a todo custo uma justificativa para o fato.
    Eu vejo a culpa como remorso; quanto ao fato do suicídio é um vazio gigantesco e total desprezo pela vida.

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  6. A culpa é da culpa.
    A culpa atormenta porque nos julgamos pequenos, insuficientes, culpados antes de ter um julgamento coerente.
    A culpa é o grito desesperado da consciência ética que a cada dia se esvai.

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  7. SIMONE SADALLA16 junho, 2010

    A culpa é o pior dos sentimentos. Vem de dentro da alma, é um sentimento corrosivo e destrutivo...!!!
    Somente quem não tem sentimentos não sente culpa de algo que fez e não queria ter feito....!!!

    Então o que resta é tentar aceitar que errou, se errou e pedir humildes desculpas a quem quer que seja....!!! Assim poderá aliviar este sentimento...!!!

    Abraços, Simone Sadalla

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