quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Suicidas ilustres 08: Robert Fitzroy

Robert FitzRoy (1805-1865) foi o capitão do navio HMS Beagle, durante a famosa viagem de Charles Darwin ao redor do mundo. Em sua primeira viagem a comando do Beagle, FitzRoy embarcou no porto do Rio de Janeiro em 1828, com o objetivo de explorar mais a costa da Patagônia, Andes e a Terra do Fogo. Decidido a provar que os nativos fueguinos eram seres humanos normais, nascidos em condições adversas, capturou quatro deles, a fim de educá-los na Inglaterra, transformando-os em "bons cristãos" antes de trazê-los de volta, "civilizados".
Em 1831, zarpou da Europa na segunda viagem, levando os nativos de volta, além de Charles Darwin. Este, sobre os fueguinos, haveria de comentar mais tarde, que, mesmo educados, eram mais parecidos com animais do que os cães ingleses, que "o homem no estado selvagem é mais primitivo do que os animais domésticos".
A viagem era longa e perigosa. Para sustentar sua autoridade de comando, ele precisava se manter distante de seus subordinados, mas a solidão e o isolamento podiam cobrar um tributo terrível no mar (o ex-capitão do Beagle se matara durante a viagem) e Fitzroy temia também por seus antecedentes familiares, pois seu tio, o visconde de Castlereagh, em 1822 cortara a própria garganta. Assim ele resolvera levar um companheiro de refeições, que fosse um cavalheiro educado, de boas maneiras. Esse, foi o motivo do convite feito a Darwin, e não, como muitas vezes se diz, o fato de ser ele um naturalista, origem de sua notoriedade futura.
No pior trecho da viagem, na Terra do Fogo, estremecendo de frio, Darwin escreveu: “A cena cadavérica de desolação excede toda descrição”. Região na qual centenas de colonos espanhóis morreram de fome no século XVI, ali também o ex-capitão do Beagle, Strokes, não suportando, se matara em 1826. Pouco depois, sinistros acontecimentos se anunciavam. Os ingratos nativos, agora "adequadamente educados", fugiram após saquearem o navio. Sob grande tensão, Fitzroy sofrera um colapso. Deprimido, duvidando de sua sanidade mental, sujeito à deserção em massa de sua tripulação (incluindo Darwin), foi temporáriamente retirado do comando durante o levantamento da costa oeste, até iniciarem a travessia do Oceano Pacífico. Depois estiveram nas Galápagos, Taiti, Austrália e nas notáveis Ilhas Maurício, agora em tranquilidade.
Após o retorno à Europa, publicou livros sobre suas viagens e tratados de meteorologia. Darwin publicou "A Origem das Espécies". Cristão devoto que era, Fitzroy entrou em públicas polêmicas com Darwin a respeito de seu livro pecaminoso, ofensivo que era às sagradas escrituras. Atormentado e em crise, culpava-se por trair, segundo sua visão perturbada, os ensinamentos bíblicos, por ter contribuído, sem intenção, diga-se a bem da verdade, com a viagem que fora o passo fundamental para a heresia evolucionista. Pleno de remorsos e em grande sofrimento, seguiu os passos de seu tio e do seu antecessor no comando do Beagle, cortando a própria garganta com uma navalha. Ele, que viu humanidade nos silvícolas, foi esquecido, enquanto o outro, que os considerava animalescos é celebrado até hoje.

6 comentários:

  1. A vida, às vezes, parece um pouco ingrata, injusta. Mas eu nã acredito nessas aparências.
    Maurício, não há vez que eu venha aqui que não saia melhor do que cheguei.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  2. Desde que meu melhor amigo foi transferido há um ano e oito meses eu janto todos os dias sozinha mas, para tristeza de muitos, eu não vou me matar, até porque, eu apreciso o sentimento de culpa da traição cristão.

    Eu sei, ficou sem nexo, mas não me importo: eu costumo jantar às 18h.
    ;)

    ResponderExcluir
  3. O jovem Darwin, então com 22 anos, deve ter cometido esta sandices, mas não há como negar que foi um dos gênios da espécie humana.

    ResponderExcluir
  4. Caro Dr. Maurício,

    Obrigado por compartilhar seus pensamentos no blog. Queria apenas comentar um assunto que discutimos muito entre jornalistas e que é tratado nas faculdades de Comunicação: devemos escrever sobre o suicídio? A resposta imediata que aprendemos como alunos é que esse comportamento, se divulgado, tende a ser copiado... Então, a recomendação que recebemos e não escrever sobre esse tema, principalmente se a personagem envolvida no ato é famosa, pois algumas pessoas podem querer imitar ídolos ou sujeitos que tomam como referência... Então, deixo o meu convite a refletir sobre essa delicada questão.

    Abraço

    ResponderExcluir
  5. Caro Óscar,
    Você está totalmente certo, no que diz respeito aos meios de comunicação em geral. Acontece diferente na minha área, onde o assunto está mais presente do que em qualquer outro lugar, é este o espaço para discutir abertamente, com intuito preventivo.

    ResponderExcluir