sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Suicidas Ilustres 12: Santos Dumont


Em férias no Guarujá, visitando o Shopping Center La Plage, na praia de Pitangueiras, antiga sede do Hotel La Plage, recebo a visita de estranhos fantasmas que me fazem pensar no “pai da aviação”. No resto do mundo, tal mérito é concedido aos irmãos Wilbur e Orville Wright, ao contrário do Brasil, onde é assim considerado Santos Dumont. Essas três vidas fornecem interessante exemplo de trajetórias opostas em tudo: origem, objetivos, conduta e destinos

Os irmãos Wright nasceram na humildade. Caipiras do meio oeste americano, fabricantes de bicicleta na Carolina do Norte, imbuídos de espírito prático e lógica empresarial, trabalharam duro, em segredo, no anonimato, desenvolvendo sem alarde projetos de máquinas voadoras na localidade de Kitty Hawk. Procuravam passar despercebidos, a fim de aprimorar seus conhecimentos para conseguirem a patente de um produto de qualidade. Seu primeiro vôo, em 1903, permaneceu em segredo, as fotos dele só foram divulgadas em 1908, dois anos após o festejado vôo do 14-bis. Em 1909 já haviam fechado um contrato com o governo dos EUA, para a construção do primeiro avião militar da história, onde, em 1915, já seriam produzidos 16 unidades por dia. Trabalharam discretamente, evitando o exibicionismo e as manchetes. Compreenderam o espírito dos tempos em que viviam e colheram os frutos dessa lucidez. Da pobreza original fizeram-se ricos, porém continuaram reservados. Viveram vidas com prestígio, prosperidade e reconhecimento crescentes.

Santos Dumont nasceu rico. Filho de fazendeiro de café e construtor de estradas de ferro, estudou nas melhores escolas da época no Brasil, tendo depois completado sua educação universitária na França e Inglaterra. Membro da elite, cedo conheceu a fama, vivia entre celebridades na França. Amava a vida de conforto e ostentação que levava, adorava exibir-se. Convidava os amigos para almoçar no Les Cascades, restaurante do Bois de Boulogne, o maior parque parisiense, e, quando todos já o esperavam, surgia num balão, que estacionava docemente no gramado. Em meio a grande divulgação e alarde, desenvolvia seus projetos que eram entusiasticamente estampados nas manchetes dos jornais. Seu vôo no 14-bis, nos campos de Bagatelli em 1906, foi uma exibição para mais de mil pessoas, que a seguir, assistiram a sua premiação. Praticante de Alpinismo e Automobilismo, Santos Dumont parecia viver numa realidade paralela, encantada, distante das dificuldades e preocupações comuns. Quando a I Guerra estourou, foi incapaz de aceitar o fato de que os aviões seriam usados como arma. Chegou a ser preso em Paris, injustamente acusado de espionagem a favor dos alemães. Em 1926 apelou à Liga das Nações para que impedisse o uso militar do avião, fato inevitável.
Praticamente esquecido fora do Brasil, tornou-se cada vez mais recluso e amargurado. Provavelmente homossexual, nunca se casou. Passou por várias internações em clínicas de repouso. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, na qual aviões foram usados, suicidou-se enforcando-se com sua própria gravata num banheiro do Hotel La Plage, onde hoje fica o Shopping que me lembrou dele. Sua vida de fantasia não o preparou para a realidade. Para quem se interessar, seu coração está exposto, imerso em formol, no Museu da Força Aérea no Campo dos Afonsos.

6 comentários:

  1. Na praia tu lembraste de um suicida e escreveste sobre.
    Aqui, na neve, penso em cães abandonados e quero escrever sobre isso.
    Que lugar pode inspirar temas felizes?

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  2. Num lençol de fio Egipcio!

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  3. ahahahha mais uma vez me vejo rindo com o comentário do anônimo! verdade envolto num lençol de fios egipcios e com uma boa companhia, não há como não inspirar temas felizes.....agora sem a companhia....pode esquecer !

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  4. Tristeza, não tem fim...
    Felicidade, sim.

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  5. Não vejo como seria possível comentários sem tristeza no tema de suicídio.

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  6. A inveja, definitivamente, mata. Esse deveria estar na sua série: Pacientes que Não Tive!
    :D:D:D

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