sexta-feira, 25 de março de 2011

O suicídio do Psiquiatra

“Meu último psiquiatra se matou”. Esta singela resposta recebi ao perguntar a um novo paciente porque ele me procurou. Sempre ouvi dizer que médicos desse tipo são estranhos. Preconceito? Não, acho que é verdade. E é bom que assim seja. Afinal alguém que se propõe a passar a vida inteira ouvindo loucos deve ser louco também. Há alguns anos, trabalhando em um hospital psiquiátrico enorme, tipo manicômio mesmo, desses que a gente hoje em dia sente falta, com mais de 500 internos, certa vez o jardineiro não quis me deixar sair, pensou que eu fosse um paciente fugindo. Meu único diferencial era ter a chave da porta. Sabe lá o que é passar a noite fechado numa fortaleza com um exército de doentes mentais insones, ás vezes hostis, alucinando, gemendo, chamando pelo demo? Desde criança eu gostava de filmes de medo, mas isto é muuuito pior.
Qualquer pessoa normal sente algum tipo de “contágio”, ou “ressonância” nos sentimentos dos outros. Por exemplo, ao conversar com alguém triste, algo desta tristeza ecoa dentro de nós. A risada, o humor são contagiantes. A loucura também. Ao conversar com alguém muito perturbado sente-se um estranho desconforto de descobrir, dentro de nós mesmos, que não somos tão diferentes, ou melhor, “saudáveis”, como imaginávamos.
Hoje me dei ao trabalho de perguntar ao Dr. Google algo sobre o tão falado “Transtorno Afetivo Bipolar”, recebi 55.000 respostas em português e nada menos que 16.800.000 em inglês. A coisa mais fácil do mundo é responder um desses questionários on-line e concluir que se é bipolar... Afinal, quem é que não passa por oscilações de humor?
O que caracteriza o psiquiatra e o diferencia do questionário é que ele, assim se espera, conhece a face do demônio, já falou com ele, fez um pequeno estágio no inferno, conseguiu escapar, e de lá voltou para nos contar como é. Bem como resgatar aqueles que afundam e acham que não conseguirão voltar. É desejável que ele conheça o que é depressão, dependência química, euforia e outras coisas, e que conheça também o caminho de volta para o resgate (cura) de seu paciente.
Por tudo isso, se seu psiquiatra for um pouco estranho, não se preocupe, é um ótimo ponto de partida.

2 comentários:

  1. AMEI O TEXTO!!!!
    PARABÉNS PRA VC POR NOS AGUENTAR E TENTAR TORNAR NOSSAS VIDAS UM POUCO MENOS DIFICIL!!!!!!

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  2. AMEI...PRINCIPALMENTE POR QUE É ORIGINAL.
    SOMOS, MAS QUEM NAO É.....
    PARABENS.
    QUE SEU FIM DE SEMANA SEJA GLORIOSO.

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