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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A renúncia do Papa


Sinal de incompetência, desinteresse ou simplesmente cansaço em representar uma figura anacrônica, um símbolo, no qual ninguém, nem mesmo ele, acredita? Não importa. O grande João Paulo II deixou um legado (político) magnífico, pôs abaixo o muro de Berlim e as ditaduras mais hipócritas da humanidade. Ratzinger pode ser um grande intelectual, mas sua ortodoxia está distante da realidade de um mundo que não acredita em nada do que ele prega. Catolicismo é religião de país pobre e de gente ignorante, não tão ignorante ao ponto de ser crente, mas alfabetizados ao ponto de serem espíritas ou protestantes (idiotas de outro tipo). O rebanho católico usa camisinha, usa anticoncepcional com alegria, faz muito sexo antes do casamento, trai seus parceiros sem culpa, separam-se quando querem, casam várias vezes, aceitam e respeitam os gays. E não estão nem aí para a infalibilidade papal. Sem contar a repugnância que ele insiste em gerar ao proteger seus amiguinhos pedófilos. Sua renúncia indica que seu papado foi derrotado pela História. A alegria de viver e a luz venceram o medo do escuro, do castigo, do pecado medievais.


Mas, cá entre nós... esse raio caindo sobre a basílica após a notícia da renúncia não parece a fúria de Deus... vai saber como Ele pretende se vingar de tamanha humilhação... Vou me cuidar enquanto é tempo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Será verdade que o homem esteve na Lua?


Um texto forte. Uma estória real, que não é para qualquer um: de como um famoso cosmólogo Russo conseguiu cálculos reveladores e extraordinários.

Os mistérios do universo desconhecem limites. A humanidade levou séculos para completar o mapa do mundo e até hoje persiste a discussão do local exato do jardim do Éden, de onde foram expulsos Adão e Eva. Dizem que o homem chegou até a Lua, mas muitos duvidam da veracidade desse fato. Alguns argumentam que tudo não passou de uma montagem com truques cinematográficos, para impressionar os Russos no auge da Guerra Fria. Certa vez, ouvi um argumento muito forte na defesa dessa posição. Como teria o homem atravessado o céu em suas espaçonaves, sem deparar com Anjos e Santos, com o paraíso celeste, sem fazer sequer um contato visual com Deus?

George Gamow, nascido em Odessa, em 1904, desde criança demonstrou interesse por ciências. Ficou fascinado por um microscópio que ganhou do pai, e que usou para estudar o processo da transubstanciação. Depois de fazer a primeira comunhão na Igreja Ortodoxa Russa Local, correu para casa com fragmentos do pão e gotas do vinho, colocou-os no microscópio e comparou com fragmentos de pão e vinho comuns. Não encontrou evidências que a estrutura do pão e do vinho tivessem se transformado no corpo ou sangue de Cristo. Mais tarde ele afirmaria: “nesse momento, me tornei um cientista”. A partir daí, tornou-se um físico ambicioso, conseguiu fugir para os EUA, ingressando na Universidade George Washington, onde passou a estudar os mistérios da criação, a formação de núcleos atômicos e sua relação com a origem do Universo, na ainda nascente teoria do BigBang.

Em seus estudos cósmicos, conseguiu dados inquestionáveis da distância da morada de Deus. Esse resultado se baseou no fato de que em 1904, quando estourou a guerra russo-japonesa, as Igrejas de toda Rússia se mobilizaram em preces maciças pedindo a destruição do Japão. Todos nós sabemos que, embora ortodoxos, os Russos dos tempos do Czar eram Cristãos devotos, rezavam para o Deus verdadeiro, enquanto os japoneses, ateus e xintoístas, acreditavam na divindade de seu imperador. Uma batalha desigual. É bem verdade que depois de 1917, a religião na Rússia foi combatida pelos comunistas ateus, mas as preces já haviam sido feitas e devidamente encaminhadas. O tempo haveria de castigar os comunistas no futuro. Mas o fato é que os japoneses venceram a guerra, desmoralizando os Russos. A destruição do Japão só aconteceria em 1923, ano em que foi castigado pelo terremoto de Kano. Profundo conhecedor dos mistérios da física, Gamow, compreendeu então que o lapso de tempo entre as preces fervorosas e a resposta irada de Deus contra os japoneses, fora limitado pela velocidade da luz, que não pode ser ultrapassada por nada no Universo. A partir daí, foi só fazer as contas e ele chegou ao resultado de 9,5 anos-luz de distância da Terra. Isso derruba o argumento da discussão inicial, fazendo com que seja totalmente possível de que o homem tenha chegado à Lua, que fica muuuuuito mais próxima, a apenas 400.000 km , ou 1,3 segundos-luz da Terra, cerca de 5 bilhões de vezes mais próxima de nós do que a morada de Deus.

sábado, 23 de julho de 2011

Pacientes que não tive 23: o motorista do Porsche assassino


No dia 9 de julho, Marcelo Malvino, engenheiro de 36 anos, acelerou o Porsche que dirigia na rua Tabapuã, até a velocidade de 150 Km/hora, atingindo o veículo dirigido por Cintia Santos, matando-a na hora. Do local do acidente, ligou para seu advogado, repetindo: “acabaram com meu carro!”. Em recente entrevista à Folha de São Paulo (23/07), o engenheiro, em sua defesa, afirmou:

“Graças a Deus eu tive um bom exemplo, meu pai sempre trabalhou. Trabalhei, ganhei dinheiro, compro o que eu quiser com ele. Meu problema é porque meu carro é um Porsche, de 500 mil reais, que eu acho lindo, bacana, gostei desde criança. Se eu tivesse comprado um apartamento com esse dinheiro, seria considerado normal. Estou sendo acusado da morte de uma pessoa. Se eu tivesse morrido, seria acusado de suicídio? Acordei no hospital, onde estava com o peito roxo e tive de costurar a orelha... Não sou bandido. O farol abriu, eu saí um pouco mais rápido, o farol da frente estava verde, eu passei. Não cometi nenhum ato de irresponsabilidade. Tudo tem um porquê, que a gente tem que aceitar. No acidente, ela morreu. Com certeza isso estava no plano de Deus. Deus quis me mostrar alguma coisa.”

Fico pensando se as pessoas que acreditam em Deus, a família de Cíntia, e os religiosos que tanto me criticam concordam com ele...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ciclistas atropelados: crime, maldade ou doença?

Em 1999, o então estudante do sexto ano de medicina da Santa Casa, Mateus da Costa Meira, disparou uma metralhadora sobre a platéia do cinema do Shopping Morumbi, ferindo 4 pessoas e matando outras três. Na penitenciária Lemos Brito, em Salvador, anos depois, tentou matar um colega de cela. Seus advogados de defesa alegaram insanidade mental.
Em janeiro, o jornalista português Carlos Castro, foi espancado, desfigurado, castrado e morto por seu suposto amante, o modelo Renato Seabra, de 21 anos, num quarto de hotel em Nova York. Depois de confessar o assassinato, ele encontra-se internado no Hospital Bellevue, na condição de paciente com “perturbação mental”.
Na semana passada, o bancário José Neis avançou seu carro sobre ciclistas em Porto Alegre, atropelando quinze pessoas. Oito estão hospitalizadas. Depois de se apresentar à polícia, internou-se numa clínica psiquiátrica para “se tratar”.
Diante de horrores assim, a sociedade, incapaz de explicá-los, tem a tendência de considerá-los comportamentos “doentios”. Afinal, não é aceitável que uma pessoa “normal” os cometa. Existe um movimento de medicalizar, “psiquiatrizar” o mal. Ao considerar o crime como manifestação de doença, de alguma forma parece que isentamos o “paciente” de sua parcela de responsabilidade no ato criminoso. Ninguém adoece porque quer, certo? Ao afirmar que o assassino de ontem é o doente de hoje, a psiquiatria flerta com a possibilidade de cura no amanhã, quem sabe, para alegria da industria farmacêutica. É uma grande ousadia da ciência, que parece querer responder uma questão eminentemente teológica: como conciliar a existência de Deus com o mal no mundo? Fácil assim: basta recorrer ao CID (Código Internacional de Doenças), no capítulo de Psiquiatria.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A fisgada da saudade

" Ela foi rápida, levantou a mão e perguntou.
"O senhor acredita em Deus?"
A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a existência de Deus, mas os descaminhos da educação. Mas logo compreendi. Ela não havia ido ali para aprender sobre escolas, professores e alunos. Ela trouxera sua dor pronta e a levava por onde quer que andasse. Não era pergunta de catecismo. Era coisa que lhe doía na carne e na alma, espinho nas vísceras. Pois não é quando a vida dói que balbuciamos o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, acreditando, dorme sem sobressaltos.
Riobaldo sabia e dizia: "Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas... Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma".
Lembrei-me de R.S. Thomas, pastor e poeta numa pobre e rude comunidade rural da Irlanda. Pastor, devia saber. Porque não é pra isso que os fiéis vão à igreja, pra ouvirem do padre ou pastor que Ele existe? Mas ele de Deus só ouvia o silêncio: "Nenhuma palavra veio ao homem ajoelhado. Ele só ouviu a canção do vento. Ou o barulho seco de asas que não via, não eram anjos, eram morcegos no alto do forro da igreja. Ele não virá mais..." Nesse "Ele não virá mais..." estava toda a sua dor.
Agora, quando sinto a fisgada, busco o socorro dos poetas. Se eu tivesse me lembrado, minha resposta teria sido outra. Eu teria repetido as palavras do Chico:

 "Oh, metade arrancada de mim... Leva o vulto teu,
Que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu..."

Saudade é um vazio que dói, presença da uma ausência, lugar onde o amor se aninhou, mas agora o ninho está vazio...Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que vai chegar ou a que arruma para o filho que nunca vai chegar?
Ela me perguntava se eu "acreditava". Mas eu, como R.S.Thomas e o Chico, de Deus só tenho a nostalgia e a saudade.
Se eu tivesse me lembrado, eu simplesmente teria dito:"Não, eu não acredito em Deus. Concordo com o poeta: Alberto Caeiro diz que não acredita em Deus porque nunca o viu. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo, e entraria pela minha porta a dentro dizendo-me: "Aqui estou". Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos. Por isso se nos não mostrou."
Não, não acredito em Deus. O que eu tenho é aquela dor chamada saudade... A Adélia sabia e sofria: "Eh saudade! De quê, meu Deus? Não sei mais..."
Deus é essa fisgada sem nome que sinto no coração. Ela tem hora certa para aparecer: no crepúsculo. Verso de Browning: "A gente vai andando solidamente pela rua e, de repente, um pôr-de-sol... E estamos perdidos de novo"."Por causa dessa dor sem nome eu acendo meus altares com poesia e música para colocar beleza no abismo escuro..."

Não, não acredito em Deus. Mas sinto a fisgada...

(Texto de Rubem Alves, teólogo e psicanalista: http://www.releituras.com/rubemalves_bio.asp  )

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pensamento

"A ciência não torna impossível acreditar em deus. Simplesmente torna possível não acreditar em deus."

(de Steven Weinberg, físico estadunidense, prêmio Nobel de Física em 1979, membro da Royal Society of London e da U.S. National Academy of Science).

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O ateu no armário (provocação filosófica)

Recentemente, um paciente ilustre, por acaso ateu, chamou minha atenção para o fato de lhe ser muito difícil assumir esta condição em público. Fez uma interessante analogia com os homossexuais. Antes considerados criminosos, pecadores ou doentes; hoje são aceitos e respeitados, se não celebrados, tal o sucesso de eventos como a parada gay. Não se pode hoje, sequer expressar uma opinião a eles contrária, sob o risco de ser acusado de discriminação ou homofobia, estes sim crimes previstos, atualmente, em lei. Quando não assume sua condição em público, diz-se que o homossexual ainda está “no armário”.
Pois bem, pesquisas de opinião nos EUA revelam que o acesso à presidência pelo voto popular seria possível para muitas minorias. Poderia ter sido uma mulher, como Hillary Clinton. Ou um negro, como Barack Obama recentemente. Um homossexual, segundo essas pesquisas, seria aceito. Acredito que até um usuário de drogas, lembro que Bill Clinton, com seu tradicional jogo de cintura, afirmou ter fumado, “mas não tragado”, a maconha. Mas alguém que se declarasse ateu, nas urnas sofreria um massacre.
Ele argumenta que muitas pessoas, ao se dizerem católicas, logo em seguida acrescentam um “não praticante”, seja lá o que isso queira dizer. Este ateu que conheço se diz um “Ateu Praticante”, e lamenta dizer que não pode declarar esse fato publicamente, sob risco de ser excluído como uma aberração, um doente ou criminoso . Perderia seu emprego, sua respeitabilidade. Para manter sua posição social, freqüenta a igreja, local no qual descobriu muitas pessoas em situação semelhante. Sente-se obrigado a mentir, assumir uma identidade falsa, fingindo que acredita em coisas que não fazem sentido, para ele.
O maior problema que os homossexuais sempre encontraram, não foi com relação ao que acreditavam, gostavam ou queriam. O maior problema sempre se deu no choque com a opinião dos outros, com as convenções sociais. O mesmo acontece com os ateus, diz este paciente. Para ele, é melhor não “sair do armário”.

Provocação filosófica:
“Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, dúvidas que tem a respeito desse assunto. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo.”
David Hume, sobre a religião, no "Tratado da Natureza Humana - Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais". Hume foi um filósofo escocês, cético, fundador do empirismo, pioneiro na aplicação do método experimental sobre os fenômenos mentais.