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domingo, 19 de maio de 2013

Chico Buarque: Trocando em Miúdos (1978)



No Brasil, até o ano de 1977, quando foi legalizado o divórcio, as separações conjugais constituíam, no máximo em "desquite", que permitia a separação dos corpos, mantendo o vínculo matrimonial, conforme determinação da Santa Igreja, desde os tempos do Império no Brasil. Ou seja, há apenas uma geração, os casais eram regidos por leis inspiradas na religião dos tempos de D. João VI e D. Pedro I.  

Alguém se lembra do "É o Tchan"? E você, chegou também a cantar "...delícia! delícia! Assim você me mata! Ai, se eu te pego, ai, ai...", do Michel Teló? Essas porcarias proliferam como uma praga, e se propagam como uma epidemia de sarampo, com a mesma velocidade. Modismos que desaparecem tão rápido como surgiram, no esquecimento absoluto. Puro lixo consumido por retardados.
Muito diferente do que me lembro dos anos 70, quando esperávamos ansiosos pelos novos discos do Chico Buarque, com composições maravilhosas, que por gerações, ao contrário de Teló, continuarão sendo lembradas. Eram letras elegantes, simples e inteligentes, sofisticadas.
Talvez comemorando os avanços legais referentes ao divórcio, em 1978 Chico compôs "Trocando em miúdos", música na qual descreve as dores de uma separação, mas sem ar de tragédia como no passado, e sim como um acontecimento triste, a ser superado, conforme a mentalidade de então. Acontece que os censores da época, enxergavam códigos subversivos secretos em toda parte, e a música faz menção a um livro de Pablo Neruda: "Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu". Para quem não sabe, Neruda era poeta e diplomata chileno, comunista histórico; abriu mão da candidatura à presidência de seu país em favor de Salvador Allende, que após eleito, foi deposto e morto por Pinochet (o  homem mais injustiçado do século). O fato é, que essa simples menção a Neruda foi o suficiente para a censura proibir a canção. Ao tomar conhecimento do motivo estúpido da proibição, Chico argumentou com os censores que não havia risco nenhum de subversão, pois, conforme a própria música afirma, ela levou o livro, mas não leu. Para nossa alegria, a música foi então liberada.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A fisgada da saudade

" Ela foi rápida, levantou a mão e perguntou.
"O senhor acredita em Deus?"
A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a existência de Deus, mas os descaminhos da educação. Mas logo compreendi. Ela não havia ido ali para aprender sobre escolas, professores e alunos. Ela trouxera sua dor pronta e a levava por onde quer que andasse. Não era pergunta de catecismo. Era coisa que lhe doía na carne e na alma, espinho nas vísceras. Pois não é quando a vida dói que balbuciamos o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, acreditando, dorme sem sobressaltos.
Riobaldo sabia e dizia: "Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas... Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma".
Lembrei-me de R.S. Thomas, pastor e poeta numa pobre e rude comunidade rural da Irlanda. Pastor, devia saber. Porque não é pra isso que os fiéis vão à igreja, pra ouvirem do padre ou pastor que Ele existe? Mas ele de Deus só ouvia o silêncio: "Nenhuma palavra veio ao homem ajoelhado. Ele só ouviu a canção do vento. Ou o barulho seco de asas que não via, não eram anjos, eram morcegos no alto do forro da igreja. Ele não virá mais..." Nesse "Ele não virá mais..." estava toda a sua dor.
Agora, quando sinto a fisgada, busco o socorro dos poetas. Se eu tivesse me lembrado, minha resposta teria sido outra. Eu teria repetido as palavras do Chico:

 "Oh, metade arrancada de mim... Leva o vulto teu,
Que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu..."

Saudade é um vazio que dói, presença da uma ausência, lugar onde o amor se aninhou, mas agora o ninho está vazio...Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que vai chegar ou a que arruma para o filho que nunca vai chegar?
Ela me perguntava se eu "acreditava". Mas eu, como R.S.Thomas e o Chico, de Deus só tenho a nostalgia e a saudade.
Se eu tivesse me lembrado, eu simplesmente teria dito:"Não, eu não acredito em Deus. Concordo com o poeta: Alberto Caeiro diz que não acredita em Deus porque nunca o viu. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo, e entraria pela minha porta a dentro dizendo-me: "Aqui estou". Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos. Por isso se nos não mostrou."
Não, não acredito em Deus. O que eu tenho é aquela dor chamada saudade... A Adélia sabia e sofria: "Eh saudade! De quê, meu Deus? Não sei mais..."
Deus é essa fisgada sem nome que sinto no coração. Ela tem hora certa para aparecer: no crepúsculo. Verso de Browning: "A gente vai andando solidamente pela rua e, de repente, um pôr-de-sol... E estamos perdidos de novo"."Por causa dessa dor sem nome eu acendo meus altares com poesia e música para colocar beleza no abismo escuro..."

Não, não acredito em Deus. Mas sinto a fisgada...

(Texto de Rubem Alves, teólogo e psicanalista: http://www.releituras.com/rubemalves_bio.asp  )

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Memento Mori

Máxima romana. Frase sussurrada por um escravo a um general romano, durante um desfile comemorativo a uma vitória militar, para que ele não se sentisse semelhante aos deuses, significando:"lembra-te de que vais morrer". Uma advertência para que não esqueçamos da brevidade da vida. Tornou-se muito popular durante o atormentado período barroco, ocasião em que as pessoas levavam consigo amuletos "memento mori", como fazemos hoje com bijouterias. A diferença é que esta última só faz referência à imitação, ao superficial, ao descartável.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Paixão

Eu nunca me havia dado conta!
Duas palavras tão presentes em meu vocabulário cotidiano, com significados tão distintos uma da outra (será mesmo?), tem a mesma origem etimológica.
Do grego "pathos" que significa "padecer", "sofrer" no sentido de algo que ocorre ao sujeito independente de sua vontade, que o atinge, sem que ele provoque, mas sim sofrendo a ação de uma causa externa; é daí que se originam as palavras "paixão", "patologia" (doença)e "patológico" (doentio).
Acho que a paixão deve ser a única doença deliciosa. Será contagiosa? Será que mata?

sábado, 10 de julho de 2010

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Carpe Diem

"Aproveita o dia"
"...quam minimum credula posterum!" (e confia o mínimo possível nos dias posteriores!)
Assim soa a famosa citação completa do poeta romano Horácio. Marca o fim de um poema em que ele adverte o fictício Leucônoe contra o futuro. Deve viver de forma sensata o presente, e utilizar bem o seu tempo. O lema sempre foi retomado, por exemplo, no barroco pelo poeta Martin Opitz (1597-1639), que intitulou um de seus poemas dessa forma, como no belíssimo filme "A sociedade dos poetas mortos", de 1989, onde os fãs do seriado "House" podem admirar o início da carreira do dr. James Wilson, interpretado por Robert Sean Leonard, ainda adolescente.

domingo, 6 de junho de 2010

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.

(Vinícius de Moraes)