O álcool que traz infelicidade para o alcoólatra é o mesmo que traz descontração para outros, a diferença não está na bebida em si, mas na relação que o bebedor estabelece com ela. Comida, bebida, trabalho, amizades, sexo. As mesmas coisas que fazem a felicidade de uns, causam a ruína de outros. Tudo, absolutamente tudo na vida tem variações e conseqüências, ou “efeitos colaterais”. Isso não é exclusividade de medicamentos. O mesmo remédio que beneficia um, prejudica outro. Cabe avaliar cada caso individualmente, pesando na balança prós e contras. Aí está o risco da automedicação, tão comum em nosso meio. É onde deve entrar o conhecimento e experiência do especialista. Antidepressivos possuem efeitos colaterais importantes, mas que podem ser benéficos de acordo com a situação. O ganho de peso pode ser bom na anorexia. A sonolência ajuda quem sofre de insônia. Retardar a ejaculação pode ser útil ao ansioso, os exemplos são inúmeros. Em mãos competentes, os antidepressivos podem ser de extrema validade.Assim, foi com estranheza que li recente manchete da Folha de São Paulo:
“Médicos desprezam os efeitos colaterais de antidepressivos”
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2604201001.htm
Leitura de interesse para muitos pacientes
quarta-feira, 28 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Estresse, ansiedade e depressão: uma epidemia.
Existem explicações baseadas na evolução do homem que explicam a ocorrência desses fenômenos em proporções epidêmicas na atualidade. Podem surgir novidades no tratamento.
Veja o artigo de Marcelo Leite, publicado ontem na Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2504201004.htm
Veja o artigo de Marcelo Leite, publicado ontem na Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2504201004.htm
sábado, 24 de abril de 2010
A queda do homem
No princípio estava o homem feliz no centro da criação. Em harmonia com a natureza, colhendo frutos e mel. Sabia o homem o que era certo e se desviava do mal. Temia a Deus. E isso era bom. Mas derrotas humilhantes se anunciavam, prestes a ser impostas ao Ego humano.
De andar pelo mundo, chegou Galilleu, assecla de Copérnico. E tirou a terra do centro do universo, pondo ali o sol. Ensinou que nossas impressões do mundo sensível são subjetivas e enganosas. Acabou de vez com a ilusão da certeza. Descobriu o homem que não estava no centro, nem do sistema solar, menos ainda da Via Láctea. E isso foi mal. Homens piedosos lançaram às chamas homens hereges a fim de conter os protestos dos tementes a Deus.
Darwin, fracassando em ser clérigo ou médico, vingou-se da humanidade, demonstrando que o homem não é um ente superior, mas apenas um animal entre outros. Não fruto de uma criação especial, mas sim do acaso. Modernos cientistas hoje, baseados em estudos de DNA, proclamam que os chimpanzés são mais próximos a nós do que das bestas. A psicologia comportamental substituiu a noção de mente por um conjunto de reflexos condicionados, em nada diferentes dos que determinam a conduta de um cão ou uma lombriga.
Implacávelmente, o rebaixamento do homem continuou. Freud provou que não somos senhores sequer de nossos desejos, pensamentos e atitudes. Que nossa consciência individual não é soberana, mas apenas o resultado da luta de forças inconscientes.
O progresso do conhecimento se deu pela troca de ilusões grandiosas por verdades cada vez mais deprimentes. Uma a uma foram caindo as ilusões narcísicas da humanidade, "uma espécie animal que ousara se proclamar imagem e semelhança de Deus", nas palavras de Freud. Sob este aspecto, a história da ciência é uma história de humildade intelectual progressiva. Invertendo a incoercível tendência do ser humano para fazer de si próprio o umbigo do universo.
"Outra vez me voltei, e vi vaidade debaixo do sol."
Eclesisates 4:7
De andar pelo mundo, chegou Galilleu, assecla de Copérnico. E tirou a terra do centro do universo, pondo ali o sol. Ensinou que nossas impressões do mundo sensível são subjetivas e enganosas. Acabou de vez com a ilusão da certeza. Descobriu o homem que não estava no centro, nem do sistema solar, menos ainda da Via Láctea. E isso foi mal. Homens piedosos lançaram às chamas homens hereges a fim de conter os protestos dos tementes a Deus.
Darwin, fracassando em ser clérigo ou médico, vingou-se da humanidade, demonstrando que o homem não é um ente superior, mas apenas um animal entre outros. Não fruto de uma criação especial, mas sim do acaso. Modernos cientistas hoje, baseados em estudos de DNA, proclamam que os chimpanzés são mais próximos a nós do que das bestas. A psicologia comportamental substituiu a noção de mente por um conjunto de reflexos condicionados, em nada diferentes dos que determinam a conduta de um cão ou uma lombriga.
Implacávelmente, o rebaixamento do homem continuou. Freud provou que não somos senhores sequer de nossos desejos, pensamentos e atitudes. Que nossa consciência individual não é soberana, mas apenas o resultado da luta de forças inconscientes.
O progresso do conhecimento se deu pela troca de ilusões grandiosas por verdades cada vez mais deprimentes. Uma a uma foram caindo as ilusões narcísicas da humanidade, "uma espécie animal que ousara se proclamar imagem e semelhança de Deus", nas palavras de Freud. Sob este aspecto, a história da ciência é uma história de humildade intelectual progressiva. Invertendo a incoercível tendência do ser humano para fazer de si próprio o umbigo do universo.
"Outra vez me voltei, e vi vaidade debaixo do sol."
Eclesisates 4:7
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Sibutramina: emagrecer pode ser perigoso
A sibutramina, um dos remédios para emagrecer mais vendidos no mundo, está proibida na Europa. Segundo a Agência Europeia de Medicamentos, o uso do remédio aumenta consideravelmente o risco do paciente sofrer derrame e enfarte. Nos Estados Unidos, a Agência e Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) também alertou para os riscos de enfarte e derrame. Lá a droga não foi vetada, mas o órgão pediu ao laboratório Abbot, fabricante do medicamento emagrecedor, que intensifique o alerta sobre os riscos do uso da sibutramina.
A sibutramina é um risco para pessoas com antecedentes de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia, além de a quem tem pressão alta, problemas hepáticos e cardíacos. O uso de medicamentos para emagrecer pode tanto desencadear um transtorno psíquico em alguém com predisposição para tal quanto piorar um quadro já existente. É verdade que no caso da sibutramina o risco é menor que no das anfetaminas, mas não significa que ele não exista.
Ainda em 2002, o Setor de farmacovigilância do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) informou em um alerta terapêutico ter recebido 29 notificações de eventos adversos relacionados a sibutramina. Em 11 deles, os pacientes manifestaram alterações psiquiátricas. A conclusão do CVS foi de reação adversa provavelmente relacionada ao medicamento. O órgão também alertou para o fato de haver poucos trabalhos sobre os efeitos da sibutramina como desencadeadora de transtornos psiquiátricos em indivíduos sadios ou como fator de agravamento desses transtornos em pacientes já diagnosticados como portadores de distúrbios psiquiátricos.
Entre as reações identificadas no alerta do CVS estão: sensação de morte iminente, depressão, ansiedade, agressividade, exaltação do humor, pensamento acelerado, comportamento de risco, agitação, confusão, inquietação, hipomania, alucinações. Distúrbio de conduta: irresponsabilidade, agressividade, irritabilidade, redução do senso crítico. Ansiedade excessiva,sensação de aperto no peito, dificuldade de raciocínio e ansiedade com irritabilidade.
A sibutramina é um risco para pessoas com antecedentes de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia, além de a quem tem pressão alta, problemas hepáticos e cardíacos. O uso de medicamentos para emagrecer pode tanto desencadear um transtorno psíquico em alguém com predisposição para tal quanto piorar um quadro já existente. É verdade que no caso da sibutramina o risco é menor que no das anfetaminas, mas não significa que ele não exista.
Ainda em 2002, o Setor de farmacovigilância do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) informou em um alerta terapêutico ter recebido 29 notificações de eventos adversos relacionados a sibutramina. Em 11 deles, os pacientes manifestaram alterações psiquiátricas. A conclusão do CVS foi de reação adversa provavelmente relacionada ao medicamento. O órgão também alertou para o fato de haver poucos trabalhos sobre os efeitos da sibutramina como desencadeadora de transtornos psiquiátricos em indivíduos sadios ou como fator de agravamento desses transtornos em pacientes já diagnosticados como portadores de distúrbios psiquiátricos.
Entre as reações identificadas no alerta do CVS estão: sensação de morte iminente, depressão, ansiedade, agressividade, exaltação do humor, pensamento acelerado, comportamento de risco, agitação, confusão, inquietação, hipomania, alucinações. Distúrbio de conduta: irresponsabilidade, agressividade, irritabilidade, redução do senso crítico. Ansiedade excessiva,sensação de aperto no peito, dificuldade de raciocínio e ansiedade com irritabilidade.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Carta contra o preconceito religioso
"Como médico, já me vi obrigado a dialogar e a pedir autorização com antecedência a "bandidos" e traficantes para fazer atendimento domiciliar a pacientes acamados em favelas.
Ao contrário do que a chamada da Folha induz a pensar ao mencionar a Igreja Universal ("Em vídeo, Igreja Universal sugere a pastor negociar com "bandidos", 14/4), não há nisso nada de vergonhoso. Vergonhoso é saber que há décadas existe ali um ponto de venda de drogas, conhecido por todos, onde a autoridade pública competente inexiste. Qualquer indivíduo, entidade assistencial ou igreja que pretenda fazer algum trabalho social nestes locais, infelizmente, deve passar por isso."
MAURICIO FERNANDES LUCIO, médico psiquiatra (São Paulo, SP)
Carta publicada pelo jornal Folha de São Paulo no dia 16/04/10
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1604201010.htm
Ao contrário do que a chamada da Folha induz a pensar ao mencionar a Igreja Universal ("Em vídeo, Igreja Universal sugere a pastor negociar com "bandidos", 14/4), não há nisso nada de vergonhoso. Vergonhoso é saber que há décadas existe ali um ponto de venda de drogas, conhecido por todos, onde a autoridade pública competente inexiste. Qualquer indivíduo, entidade assistencial ou igreja que pretenda fazer algum trabalho social nestes locais, infelizmente, deve passar por isso."
MAURICIO FERNANDES LUCIO, médico psiquiatra (São Paulo, SP)
Carta publicada pelo jornal Folha de São Paulo no dia 16/04/10
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1604201010.htm
terça-feira, 13 de abril de 2010
Depressão é a quinta doença mais comum no Brasil
O Suplemento de Saúde da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2008, revela que a depressão é a quinta doença de maior ocorrência no Brasil, atingindo 4,1% das 59,9 milhões de pessoas que se declaram portadora de alguma doença crônica.
As doenças crônicas (identificadas por algum médico ou profissional de saúde) mais informadas foram: hipertensão (14,0%) e doença de coluna ou costas (13,5%), com artrite ou reumatismo (5,7%), bronquite ou asma (5,0%), depressão (4,1%), doença de coração (4,0%) e diabetes (3,6%).
A Organização Mundial de Saúde estima que em pouco mais de 10 anos a depressão será a segunda doença mais comum no mundo, devendo atingir o primeiro lugar no ranking em 2030. Ela também será a maior responsável por mortes prematuras e anos produtivos perdidos dado seu potencial incapacitante.
Fonte: Estadão.com
As doenças crônicas (identificadas por algum médico ou profissional de saúde) mais informadas foram: hipertensão (14,0%) e doença de coluna ou costas (13,5%), com artrite ou reumatismo (5,7%), bronquite ou asma (5,0%), depressão (4,1%), doença de coração (4,0%) e diabetes (3,6%).
A Organização Mundial de Saúde estima que em pouco mais de 10 anos a depressão será a segunda doença mais comum no mundo, devendo atingir o primeiro lugar no ranking em 2030. Ela também será a maior responsável por mortes prematuras e anos produtivos perdidos dado seu potencial incapacitante.
Fonte: Estadão.com
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Medicamentos "Naturais"
Os medicamentos “naturais”, ou fitoterápicos, compostos por, ou extraídos de plantas, apresentam composição imprecisa e cujos princípios ativos ainda não foram isolados e devidamente estudados. Em nosso meio recorrem a um apelo mercadológico tupiniquim que busca uma pretensa, porém enganosa aproximação com a natureza, em oposição à alopatia e à química desenvolvidas, representantes do mundo industrializado. Seu emprego pode ser interpretado como uma prática remanescente da época pré-científica da medicina e da farmacologia. A continuidade e persistência dessa prática decorrem da formação insuficiente e inadequada de alguns profissionais da área de saúde, assim como de desinformação e aculturamento deficiente de uma grande parcela da população consumidora desses produtos. Some-se ao desconhecimento e desinformação, fatores ligados à má fé, a propaganda enganosa, e o aproveitamento de uma população pobre e inculta. Dizer que os fitoterápicos, “se não curam, pelo menos não fazem mal”, é falso e perigoso. Crendices como medicinas “alternativas” ou “complementares” colocam vidas em risco. Quando um tratamento “alternativo” é estudado a ponto de comprovar sua eficácia, ele deixa de ser “alternativo” e passa a ser reconhecido pela medicina. A imensa maioria dos medicamentos atualmente em uso, foi desenvolvida a partir de plantas. A penicilina, descoberta por Alexander Fleming em 1939, foi fruto da observação do comportamento de bactérias e fungos. Seu estudo permitiu a identificação e isolamento do princípio ativo produzido pelo fungo Penicillium notatum, o que garantiu sua produção em larga escala, por processos industriais, que garantem a qualidade e confiabilidade no produto final.
Exemplos de fitoterápicos de uso em larga escala: extrato seco de alcachofra, Gingko biloba, ginseng (Panax ginseng), erva de são João (Hypericum perfuratum), Passiflora incarnata, Capivarol (com gordura de capivara), biotônico Fontoura, e outros compostos macabros.
Fonte: Revista Debates (Psiquiatria hoje) da Associação Brasileira de Psiquiatria, nº6, Nov/Dez 2009
Exemplos de fitoterápicos de uso em larga escala: extrato seco de alcachofra, Gingko biloba, ginseng (Panax ginseng), erva de são João (Hypericum perfuratum), Passiflora incarnata, Capivarol (com gordura de capivara), biotônico Fontoura, e outros compostos macabros.
Fonte: Revista Debates (Psiquiatria hoje) da Associação Brasileira de Psiquiatria, nº6, Nov/Dez 2009
segunda-feira, 5 de abril de 2010
O ateu no armário (provocação filosófica)
Recentemente, um paciente ilustre, por acaso ateu, chamou minha atenção para o fato de lhe ser muito difícil assumir esta condição em público. Fez uma interessante analogia com os homossexuais. Antes considerados criminosos, pecadores ou doentes; hoje são aceitos e respeitados, se não celebrados, tal o sucesso de eventos como a parada gay. Não se pode hoje, sequer expressar uma opinião a eles contrária, sob o risco de ser acusado de discriminação ou homofobia, estes sim crimes previstos, atualmente, em lei. Quando não assume sua condição em público, diz-se que o homossexual ainda está “no armário”.
Pois bem, pesquisas de opinião nos EUA revelam que o acesso à presidência pelo voto popular seria possível para muitas minorias. Poderia ter sido uma mulher, como Hillary Clinton. Ou um negro, como Barack Obama recentemente. Um homossexual, segundo essas pesquisas, seria aceito. Acredito que até um usuário de drogas, lembro que Bill Clinton, com seu tradicional jogo de cintura, afirmou ter fumado, “mas não tragado”, a maconha. Mas alguém que se declarasse ateu, nas urnas sofreria um massacre.
Ele argumenta que muitas pessoas, ao se dizerem católicas, logo em seguida acrescentam um “não praticante”, seja lá o que isso queira dizer. Este ateu que conheço se diz um “Ateu Praticante”, e lamenta dizer que não pode declarar esse fato publicamente, sob risco de ser excluído como uma aberração, um doente ou criminoso . Perderia seu emprego, sua respeitabilidade. Para manter sua posição social, freqüenta a igreja, local no qual descobriu muitas pessoas em situação semelhante. Sente-se obrigado a mentir, assumir uma identidade falsa, fingindo que acredita em coisas que não fazem sentido, para ele.
O maior problema que os homossexuais sempre encontraram, não foi com relação ao que acreditavam, gostavam ou queriam. O maior problema sempre se deu no choque com a opinião dos outros, com as convenções sociais. O mesmo acontece com os ateus, diz este paciente. Para ele, é melhor não “sair do armário”.
Provocação filosófica:
“Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, dúvidas que tem a respeito desse assunto. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo.”
David Hume, sobre a religião, no "Tratado da Natureza Humana - Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais". Hume foi um filósofo escocês, cético, fundador do empirismo, pioneiro na aplicação do método experimental sobre os fenômenos mentais.
Pois bem, pesquisas de opinião nos EUA revelam que o acesso à presidência pelo voto popular seria possível para muitas minorias. Poderia ter sido uma mulher, como Hillary Clinton. Ou um negro, como Barack Obama recentemente. Um homossexual, segundo essas pesquisas, seria aceito. Acredito que até um usuário de drogas, lembro que Bill Clinton, com seu tradicional jogo de cintura, afirmou ter fumado, “mas não tragado”, a maconha. Mas alguém que se declarasse ateu, nas urnas sofreria um massacre.
Ele argumenta que muitas pessoas, ao se dizerem católicas, logo em seguida acrescentam um “não praticante”, seja lá o que isso queira dizer. Este ateu que conheço se diz um “Ateu Praticante”, e lamenta dizer que não pode declarar esse fato publicamente, sob risco de ser excluído como uma aberração, um doente ou criminoso . Perderia seu emprego, sua respeitabilidade. Para manter sua posição social, freqüenta a igreja, local no qual descobriu muitas pessoas em situação semelhante. Sente-se obrigado a mentir, assumir uma identidade falsa, fingindo que acredita em coisas que não fazem sentido, para ele.
O maior problema que os homossexuais sempre encontraram, não foi com relação ao que acreditavam, gostavam ou queriam. O maior problema sempre se deu no choque com a opinião dos outros, com as convenções sociais. O mesmo acontece com os ateus, diz este paciente. Para ele, é melhor não “sair do armário”.
Provocação filosófica:
“Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, dúvidas que tem a respeito desse assunto. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo.”
David Hume, sobre a religião, no "Tratado da Natureza Humana - Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais". Hume foi um filósofo escocês, cético, fundador do empirismo, pioneiro na aplicação do método experimental sobre os fenômenos mentais.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
O risco da especialidade
"Foi preciso esperar até o começo do século XX para se presenciar um espectáculo incrível: o da peculiarísssima brutalidade e agressiva estupidez com que se comporta um homem quando sabe muito de uma coisa e ignora todas as demais."
Ortega y Gasset, filóso espanhol em 'O Livro das Missões'
Ortega y Gasset, filóso espanhol em 'O Livro das Missões'
quarta-feira, 31 de março de 2010
Remédios para emagrecer: avanços legais
Finalmente boas notícias com relação ao uso de medicamentos para emagrecer. A quem interessar, leia em:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100331/not_imp531689,0.php
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100331/not_imp531689,0.php
quarta-feira, 24 de março de 2010
Remédios para emagrecer
Cassandra, a filha mais jovem e bela do rei Príamo, princesa de Tróia, já tinha tudo o que uma jovem podia desejar: riqueza, beleza e posição social. Assim, quando o Deus Apolo, filho de Zeus, por ela se apaixonou, como ela resistisse a suas investidas, nada tinha de material a lhe oferecer, subornou-a com o dom da profecia. Como profetiza, Cassandra passou a ser capaz de prever o futuro. Mesmo assim, ela recusou seu amor. Nada pior do que um Deus sexualmente frustrado. Furioso, Apolo não volta atrás (afinal ele é um Deus, digam o que quiserem deles, os deuses sempre cumprem suas promessas), mas como vingança, determina que ninguém acredite nas profecias dela. Assim se consuma a tragédia: Cassandra é capaz de prever a queda de Tróia, avisa a todos que recusem o presente dos gregos (o Cavalo de madeira do ardiloso Ulisses), mas conforme os desígnios de Apolo, ninguém a leva a sério e Tróia sucumbe.
Pacientes que me pedem receitas de remédios para emagrecer, o que acontece quase diáriamente, fazem-me reviver o drama de Cassandra. Eu aviso, explico, repito e enfatizo: esses remédios são perigosos, podem fazer muito mal, não os tomem! Advertência inútil, o desejo de emagrecer, de atingir o corpo “perfeito”, faz com que eu não seja ouvido. Conseguem os medicamentos cuja prescrição eu recuso, por outras fontes, retornando mais tarde para que eu conserte os estragos. Remédio para emagrecer, ou é enganação para ganhar dinheiro de incautos, ou é perigoso. Os que “funcionam” também causam sérios distúrbios emocionais e trazem riscos cardiovasculares. As clínicas psiquiátricas estão repletas de pessoas, principalmente mulheres, internadas devido ao uso dessas drogas, que causam depressão e psicose em quem nada antes tinha, e agravam quadros leves preexistentes.
Sendo assim, me perguntam: por que eles existem? Eu respondo: Remédio para emagrecer é presente de grego.
Pacientes que me pedem receitas de remédios para emagrecer, o que acontece quase diáriamente, fazem-me reviver o drama de Cassandra. Eu aviso, explico, repito e enfatizo: esses remédios são perigosos, podem fazer muito mal, não os tomem! Advertência inútil, o desejo de emagrecer, de atingir o corpo “perfeito”, faz com que eu não seja ouvido. Conseguem os medicamentos cuja prescrição eu recuso, por outras fontes, retornando mais tarde para que eu conserte os estragos. Remédio para emagrecer, ou é enganação para ganhar dinheiro de incautos, ou é perigoso. Os que “funcionam” também causam sérios distúrbios emocionais e trazem riscos cardiovasculares. As clínicas psiquiátricas estão repletas de pessoas, principalmente mulheres, internadas devido ao uso dessas drogas, que causam depressão e psicose em quem nada antes tinha, e agravam quadros leves preexistentes.
Sendo assim, me perguntam: por que eles existem? Eu respondo: Remédio para emagrecer é presente de grego.
quinta-feira, 18 de março de 2010
O Santo Daime e a morte de Glauco
Todos sabem como é difícil, burocrático e dispendioso abrir ou fechar uma empresa neste País. Sempre senti desconforto ao pensar como é fácil, em contraste, abrir uma igreja no Brasil, bem como nas vantagens e benfícios fiscais decorrentes. Agora, pensar que o fato de pertencer a determinado credo, autorize por Lei, o uso de substancias alucinógenas, aos outros proibida, é grotesco.
Assistimos recentemente ao assassinato de Glauco por um membro da comunidade “Céu de Maria”, que alucinado, queria que fosse feita, à sua mãe, a confirmação de que ele era Jesus Cristo. Estava na capa dos jornais de ontem, sorrindo, após ser preso tentando fugir do país com um punhado de maconha.
O chá do Santo Daime é feito com uma combinação de plantas amazônicas, que resulta numa bebida com efeitos alucinógenos, chamada “Ayahuasca”, termo de origem quíchua que quer dizer, “cipó dos espíritos”. É conhecido há longa data por povos indígenas, que dele fazem uso em rituais xamânicos. Nos anos 30, Raimundo Irineu Serra, seringueiro conhecido como “mestre” Irineu, apaixonado pelos efeitos psicotrópicos da droga, na região fronteiriça entre Bolívia, Acre e Rondônia, criou uma religião cujos cultos se fazem sob efeito dela, frequentemente associado ao uso de maconha, o que não costuma ser publicamente admitido pelos adeptos, pois esta ainda não foi liberada. Nessa região inóspita, distante e isolada, o uso da droga cresceu e se popularizou. Várias dissidências e ramificações surgiram, e os cultos proliferaram. A maior explosão de consumo aconteceu de fato nos anos 60, quando José Gabriel da Costa criou o culto da “União do Vegetal”, em Porto Velho. Eram os anos da contracultura, dos hippies, de Woodstock, com forte apelo ao uso de drogas em geral. Jovens educados e de famílias com posses, com origem principalmente no Sudeste, se deslocavam até a o distante então “território” de Rondônia onde, em meio à mata, longe da civilização, podiam se entregar ao uso da droga. Uma alternativa, para se evitar o transtorno desta longa viagem e tornar o uso mais freqüente, tem sido criar “filiais” dessa igreja em outros estados.
Me pergunto se, algum dia, alguém terá a idéia de chegar aos mesmos objetivos alegados pelos usuários da ayahuasca, de atingir a autoconsciência e encontro com deus, mediante o uso de cocaína ou crack. Espero que pelo detalhe de se dizer “religioso”, a lei não o autorize.
Sugiro a leitura:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/daime-inconsistencias-e-absurdos/
Assistimos recentemente ao assassinato de Glauco por um membro da comunidade “Céu de Maria”, que alucinado, queria que fosse feita, à sua mãe, a confirmação de que ele era Jesus Cristo. Estava na capa dos jornais de ontem, sorrindo, após ser preso tentando fugir do país com um punhado de maconha.
O chá do Santo Daime é feito com uma combinação de plantas amazônicas, que resulta numa bebida com efeitos alucinógenos, chamada “Ayahuasca”, termo de origem quíchua que quer dizer, “cipó dos espíritos”. É conhecido há longa data por povos indígenas, que dele fazem uso em rituais xamânicos. Nos anos 30, Raimundo Irineu Serra, seringueiro conhecido como “mestre” Irineu, apaixonado pelos efeitos psicotrópicos da droga, na região fronteiriça entre Bolívia, Acre e Rondônia, criou uma religião cujos cultos se fazem sob efeito dela, frequentemente associado ao uso de maconha, o que não costuma ser publicamente admitido pelos adeptos, pois esta ainda não foi liberada. Nessa região inóspita, distante e isolada, o uso da droga cresceu e se popularizou. Várias dissidências e ramificações surgiram, e os cultos proliferaram. A maior explosão de consumo aconteceu de fato nos anos 60, quando José Gabriel da Costa criou o culto da “União do Vegetal”, em Porto Velho. Eram os anos da contracultura, dos hippies, de Woodstock, com forte apelo ao uso de drogas em geral. Jovens educados e de famílias com posses, com origem principalmente no Sudeste, se deslocavam até a o distante então “território” de Rondônia onde, em meio à mata, longe da civilização, podiam se entregar ao uso da droga. Uma alternativa, para se evitar o transtorno desta longa viagem e tornar o uso mais freqüente, tem sido criar “filiais” dessa igreja em outros estados.
Me pergunto se, algum dia, alguém terá a idéia de chegar aos mesmos objetivos alegados pelos usuários da ayahuasca, de atingir a autoconsciência e encontro com deus, mediante o uso de cocaína ou crack. Espero que pelo detalhe de se dizer “religioso”, a lei não o autorize.
Sugiro a leitura:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/daime-inconsistencias-e-absurdos/
quarta-feira, 17 de março de 2010
O Dragão em minha biblioteca
André (nome fictício de um paciente) me convidou para conhecer o Dragão que vive em sua biblioteca. Adorei a idéia, afinal eu sempre quis ver um dragão de verdade. Oportunidade rara! Lá chegando, vi livros, estantes, poltrona, mas nada do dragão...
-Onde ele está?- perguntei.
-Ora, está aí- respondeu André, apontando adiante- Esqueci de lhe dizer que o dragão é invisível, só aparece quando lhe convém.
Eu proponho espalhar farinha no chão para ver suas pegadas.
-Ótima idéia- ele diz-, mas este dragão levita no ar.
Sugiro borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
-Não vai adiantar, pois é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
A idéia de usar um sensor infravermelho é rechaçada:
-Boa idéia, mas seu fogo invisível é desprovido de calor.
-Que tal deixarmos um gravador e uma câmera permanentemente ligados para flagrá-lo em seus momentos de aparição- digo.
-Inútil, pois suas aparições se dão numa dimensão que a câmera nem o gravador são capazes de registrar. E assim por diante...
Estou pensando: qual seria a diferença de um Dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, que apesar de presente, não pode ser visto nem filmado, e de um Dragão inexistente? A minha incapacidade de invalidar a hipótese de meu paciente, não é absolutamente a mesma coisa que provar sua veracidade.
Marcos, um outro paciente, diz saber que existe um prato de Capeletti no Brodo orbitando Saturno, que após morrer, em sua viagem celestial, fará ali uma parada para saboreá-lo. Não tenho como testar sua afirmação, que se mostra imune às minhas refutações. Nem por isso ela se torna verdade.
-Onde ele está?- perguntei.
-Ora, está aí- respondeu André, apontando adiante- Esqueci de lhe dizer que o dragão é invisível, só aparece quando lhe convém.
Eu proponho espalhar farinha no chão para ver suas pegadas.
-Ótima idéia- ele diz-, mas este dragão levita no ar.
Sugiro borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
-Não vai adiantar, pois é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
A idéia de usar um sensor infravermelho é rechaçada:
-Boa idéia, mas seu fogo invisível é desprovido de calor.
-Que tal deixarmos um gravador e uma câmera permanentemente ligados para flagrá-lo em seus momentos de aparição- digo.
-Inútil, pois suas aparições se dão numa dimensão que a câmera nem o gravador são capazes de registrar. E assim por diante...
Estou pensando: qual seria a diferença de um Dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, que apesar de presente, não pode ser visto nem filmado, e de um Dragão inexistente? A minha incapacidade de invalidar a hipótese de meu paciente, não é absolutamente a mesma coisa que provar sua veracidade.
Marcos, um outro paciente, diz saber que existe um prato de Capeletti no Brodo orbitando Saturno, que após morrer, em sua viagem celestial, fará ali uma parada para saboreá-lo. Não tenho como testar sua afirmação, que se mostra imune às minhas refutações. Nem por isso ela se torna verdade.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Quem é você?
“Conhece-te a ti mesmo”, estava escrito em mármore num dos locais mais venerados da Grécia antiga, o Oráculo de Delfos. Esse é o mais simples, profundo e difícil conselho da filosofia. Disse-o Tales, Sócrates repetiu-o, acrescentando que “a vida sem reflexão, não merece ser vivida”.
O auto-conhecimento requer tempo, pensamento e humildade, uma das buscas mais difíceis na vida. É adquirido, à medida que o tempo passa, mas para obtê-lo, temos de refletir no que experimentamos e examinar como pensamos. É um processo pessoal que é parte descoberta, parte invenção. A questão da identidade pessoal envolve grandes temas filosóficos, nossas atitudes frente à vida e à morte, aos outros, ao trabalho, nossas expectativas.
Nossas reações constituem uma parte profunda de quem somos.O que você ama? Do que você gosta? O que não valeria sua preocupação? Com que você realmente se importa? O que você espera da vida? As respostas vão mudando à medida que o tempo passa e experimentamos diferentes caminhos possíveis. Conforme exploramos o mundo exterior, reformulamos nosso mundo interno.
“Quem sou eu?” é menos uma pergunta por responder, reflete mais uma postura perante a vida, acompanhada de outra: “o que estou me tornando?”. Somos responsáveis pelo que fazemos com os talentos e oportunidades que recebemos. Somente o próprio processo irá, enfim, responder à pergunta de quem somos nós.
O auto-conhecimento requer tempo, pensamento e humildade, uma das buscas mais difíceis na vida. É adquirido, à medida que o tempo passa, mas para obtê-lo, temos de refletir no que experimentamos e examinar como pensamos. É um processo pessoal que é parte descoberta, parte invenção. A questão da identidade pessoal envolve grandes temas filosóficos, nossas atitudes frente à vida e à morte, aos outros, ao trabalho, nossas expectativas.
Nossas reações constituem uma parte profunda de quem somos.O que você ama? Do que você gosta? O que não valeria sua preocupação? Com que você realmente se importa? O que você espera da vida? As respostas vão mudando à medida que o tempo passa e experimentamos diferentes caminhos possíveis. Conforme exploramos o mundo exterior, reformulamos nosso mundo interno.
“Quem sou eu?” é menos uma pergunta por responder, reflete mais uma postura perante a vida, acompanhada de outra: “o que estou me tornando?”. Somos responsáveis pelo que fazemos com os talentos e oportunidades que recebemos. Somente o próprio processo irá, enfim, responder à pergunta de quem somos nós.
quinta-feira, 11 de março de 2010
O umbigo de Adão
Adão tinha umbigo?
Parece banal, mas esta questão atormentou os teólogos durante muitos anos, alimentando discussões acaloradas. Concluíram que Deus fizera Adão igual a todos os outros homens, portanto com umbigo, apesar de não ter havido nenhuma placenta. Quando as evidências geológicas se acumularam, indicando que o planeta Terra era muito mais antigo do que se imaginava, e havia indícios de estranhos e enormes animais, hoje extintos, os criacionistas argumentaram que da mesma forma como Deus dera um umbigo a Adão, deu à terra a impressão de um passado remoto, incrustado em suas entranhas. Já esses “dragões” ou monstros “antediluvianos”, atualmente conhecidos como dinossauros, foram os infelizes gigantes que, por não caberem na Arca de Noé, sucumbiram ante ao afogamento no Dilúvio.
Assim como o planeta, suas criaturas e mistérios teriam falsos registros do passado, nós também temos memórias falsas em nossa mente, com a diferença que desta vez não se trata de especulação. Estudos psicológicos mostram que a memória é muito pouco confiável e pode ser manipulada. A cada vez que evocamos uma recordação, moldamo-la com as ferramentas do presente. É preciso ser muito cauteloso e um pouco cético, pricipalmente em questões judiciais e envolvendo psicoterapia.
terça-feira, 9 de março de 2010
Maconha eleva risco de psicose
Entre jovens que fumam maconha há seis anos ou mais, o risco de apresentar episódios psicóticos de alucinação ou delírios pode chegar a ser o dobro do verificado entre as pessoas que nunca consumiram a droga, segundo um estudo publicado no periódico "Archives of General Psychiatry". De acordo com o trabalho, quanto maior a duração do uso da maconha, maior o risco de se manifestarem os sintomas da psicose.
A pesquisa, que estudou 3.801 homens e mulheres de 26 a 29 anos, é a primeira a analisar o skunk -maconha mais forte, com maiores quantidades do ingrediente psicoativo THC (tetrahidrocannabinol). A pesquisa também avaliou 228 pares de irmãos, o que sugere que fatores genéticos ou ambientais têm menos chance de serem responsáveis pela psicose e pelas alucinações.
"Já desconfiava-se da relação entre o uso crônico da maconha e o aparecimento de casos psicóticos, mas este parece ser o primeiro estudo que dá uma base científica a essa visão que nós tínhamos", afirma Arthur Guerra, psiquiatra responsável pelo Grupo de Drogas da Faculdade de Medicina da USP.
A ONU estima que 190 milhões de pessoas usem maconha no mundo todo.
Folha de São Paulo, 03 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Hipócrates
Hipócrates de Cós, considerado o pai da medicina, a quem prestei juramento, é celebrado sobretudo por seus esforços em arrancar a medicina do terreno da superstição e trazê-la à luz da ciência. Há 2500 anos escreveu: “Os homens acham a epilepsia divina, simplesmente porque não a compreendem. Mas se chamarem de divino tudo o que não compreendem, ora, as coisas divinas não terão fim”. Em vez de reconhecer que em muitas áreas somos ignorantes, somos inclinados a dizer que o Universo está impregnado de entidades mágicas. A deuses são atribuídos as responsabilidades por aquilo que ainda não compreendemos. Conforme o conhecimento do universo se amplia, estreita-se o que tinha de ser atribuído à intervenção divina, a respeito das causas e tratamento das doenças. Hipócrates introduziu elementos do método científico no diagnóstico e tratamento, recomendava a observação meticulosa, a honestidade e a humildade dos limites do conhecimento. Não se envergonhava de sua ignorância, mas procurou afastar os elementos de magia da prática médica. Se a mortalidade infantil, bem como as mortes durante o parto despencaram, isso se deve à aplicação do método científico à medicina. A expectativa de vida subiu de 30 anos na Idade Média, para 50 anos em 1915, ultrapassando hoje os 80 anos.
A epilepsia perdeu sua aura de doença divina, perdeu um pouco de seu misterioso charme, para a alegria de todos, e hoje é totalmente tratável.
terça-feira, 2 de março de 2010
A Lealdade das Mulheres
Em recente conversa com uma paciente, abordei o tema da lealdade feminina a seus parceiros, que considero muito diferente da masculina. Lembrei que durante anos atendendo casais soropositivos ou com AIDS, constatei que os homens frequentemente abandonam suas parceiras, caso elas se descubram contaminadas com HIV. Mas não me lembro de ter visto uma mulher que fizesse o mesmo, na situação inversa. Lembrei então de um excelente artigo de Contardo Calligaris abordando o mesmo tema, recentemente na Folha de São Paulo, que recomendo:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1802201025.htm (assinantes UOL/Folha) , ou:http://fredrodrigues.posterous.com/folha-de-spaulo-contardo-calligaris-a-lealdad (geral)
segunda-feira, 1 de março de 2010
Ahmadinejad e os Homossexuais
Em visita à Universidade Columbia nos EUA, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao ser questionado sobre o tratamento que os homossexuais recebem em seu país, respondeu: “Não temos homossexuais no Irã,como acontece nos EUA. No Irã não existe esse fenômeno.”
Não acredito que isso seja verdade, tampouco que ele mesmo esteja convencido de suas palavras. Acredito que no Irã, como em qualquer outro lugar do mundo, existam homossexuais, mas a diferença seria a maneira como são tratados, sendo eliminados ou escondidos. Quero chamar a atenção aqui para a maneira de lidar com o problema. Ao invés de enfrentar o desconforto de enxergá-lo e discuti-lo, ele optou pela cômoda saída de não vê-lo, negando sua existência. Isso encerra a discussão, mas não elimina a dificuldade.
A negação é um mecanismo de defesa contra ansiedade, é humano, e todos se valem dela em um momento ou outro da vida. Mas é primitivo, por isso ele pareceu infantil e caricato com sua resposta. É algo mais complexo do que a simples mentira. E pode causar muitos danos, principalmente quando se pensa em enriquecimento de urânio.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Reconhecendo a depressão
Os sintomas da depressão variam muito, ela pode se apresentar de diversas maneiras, mas alguns aspectos são mais comuns. Em geral, a pessoa sente o humor rebaixado, com perda dos interesses habituais, dificuldade para sentir prazer, mesmo nas atividades que mais lhe agradavam. A tristeza é comum, e sem uma motivação clara. Perda de energia, fadiga e cansaço resultam em baixo desempenho nas tarefas rotineiras como trabalho e estudo. O rendimento intelectual cai, bem como a capacidade de concentração e memória. Pode ser difícil ler um texto, ver um filme. As tarefas que eram fáceis, inexplicavelmente tornam-se penosas, dificultando a tomada de decisões. A pessoa irrita-se com mais facilidade. O conteúdo do pensamento pode se tornar mórbido, com idéias de ruína, culpa, perda, inutilidade, desesperança. Existe uma visão negativa do mundo e de si mesmo, sensação de incapacidade. Pode haver idéias irreais de que a situação financeira caminha para o colapso, que não será possível pagar as contas. O pensamento volta-se para o passado, com sensação de culpa por coisas que se fez (ou que não se fez), fica difícil pensar sobre o futuro, fazer planos ou projetos realistas. Pensamentos recorrentes de morte podem chegar a idéias de suicídio. Em geral ocorre insônia, principalmente na madrugada. Pode haver perda de apetite e peso. A comida perde o sabor, os pacientes dizem que o mundo “deixa de ser colorido”, de ter graça.Tudo isso torna difícil o trabalho, penosa a vida social, traz sérios prejuízos ao paciente, que muitas vezes não vê perspectivas de saída ou melhora. O significado da vida sofre uma grande mudança.
Muitos pacientes são trazidos ao tratamento pela família, pois não reconhecem que estão doentes ou precisam de tratamento. A família sofre e não consegue ajudar. Diversos são os graus de intensidade, desde quadros mais leves até os mais profundos. Se não tratada, a depressão tende a se prolongar e se tornar um quadro crônico.
O difícil é reconhecer o quadro, pois muitas vezes colegas de trabalho e amigos julgam que se trate de “frescura”, falta de vontade, “fita”. Conselhos para a pessoa “se ajudar”, “levantar a cabeça”, se animar, reagir, etc, não ajudam em nada, pois a pessoa não fica deprimida porque quer, já está cansada de ouvir isso. Depressão não é fraqueza de caráter. Muitas vezes a pessoa está tão indecisa que é preciso algum familiar até para iniciar o tratamento.
A boa notícia é que existem tratamentos eficazes, que combinam psicoterapia e medicação. Os antidepressivos atuais são muito bem aceitos, sem efeitos colaterais como ganho de peso ou sonolência. Os pacientes não se tornam dependentes da medicação e costumam retomar suas vidas como antes.
É possível superar a depressão.
Assinar:
Postagens (Atom)