Foi muito bem colocado, por nosso querido "anônimo" o comentário que lembra Vinícius de Moraes, no samba "Como dizia o poeta", primeira composição da parceria com Toquinho, baseado num adágio de Tomasso Albinoni, falecido há mais de dois séculos, que, segundo o poeta, deveria estar muito feliz com o resultado, em sua tumba. Acontece que, caso tenha passado despercebido, no mesmo samba se insere uma poesia ocasional, declamada por Vinícius, na qual ele afirma que ir ao psiquiatra é pior do que sofrer um infarto. A mensagem é linda, a vida deve ser vivida e aproveitada, com paixão e intensidade, pois é passageira (...carpe diem; memento mori) e lá um belo dia, algo põe fim a tudo isso. Confesso que, embora ele esteja coberto de razão quase sempre, não fiquei feliz com a idéia que o poeta tem de minha classe. Pena que não seja mais possível discutir isso com ele durante um porre, pois agora ele está junto de Albinoni!
Para quem quiser ouvir do que se trata (vale a pena), este é o link:
http://www.youtube.com/watch?v=fXNG2SVSIUE&feature=related
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Memento Mori
Máxima romana. Frase sussurrada por um escravo a um general romano, durante um desfile comemorativo a uma vitória militar, para que ele não se sentisse semelhante aos deuses, significando:"lembra-te de que vais morrer". Uma advertência para que não esqueçamos da brevidade da vida. Tornou-se muito popular durante o atormentado período barroco, ocasião em que as pessoas levavam consigo amuletos "memento mori", como fazemos hoje com bijouterias. A diferença é que esta última só faz referência à imitação, ao superficial, ao descartável.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Paixão
Eu nunca me havia dado conta!
Duas palavras tão presentes em meu vocabulário cotidiano, com significados tão distintos uma da outra (será mesmo?), tem a mesma origem etimológica.
Do grego "pathos" que significa "padecer", "sofrer" no sentido de algo que ocorre ao sujeito independente de sua vontade, que o atinge, sem que ele provoque, mas sim sofrendo a ação de uma causa externa; é daí que se originam as palavras "paixão", "patologia" (doença)e "patológico" (doentio).
Acho que a paixão deve ser a única doença deliciosa. Será contagiosa? Será que mata?
Duas palavras tão presentes em meu vocabulário cotidiano, com significados tão distintos uma da outra (será mesmo?), tem a mesma origem etimológica.
Do grego "pathos" que significa "padecer", "sofrer" no sentido de algo que ocorre ao sujeito independente de sua vontade, que o atinge, sem que ele provoque, mas sim sofrendo a ação de uma causa externa; é daí que se originam as palavras "paixão", "patologia" (doença)e "patológico" (doentio).
Acho que a paixão deve ser a única doença deliciosa. Será contagiosa? Será que mata?
sábado, 10 de julho de 2010
Pacientes que não tive 05: John Lennon
Um homem que fez tudo a seu modo. Viveu em intensidade. Os Beatles foram pouco. Largou tudo para ficar ao lado da mulher que amava, sob protestos inconformados da multidão. Melodia e poesia merecem atenção. Na música "God" (Deus), expressa sua descrença de maneira elegante, a tensão melódica vai crescendo enquanto enumera as coisas e entidades nas quais não crê, para encontrar alívio na conclusão, ao afirmar que só acredita em si, e em Yoko, que são reais, e que "o sonho acabou", mas teremos de continuar assim mesmo. Mesmo sem ilusões.
Poema só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
(Manuel Bandeira)
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
(Manuel Bandeira)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Campanha de prevenção ao suicídio
A partir desta semana, a Rede Globo de Televisão começa a veicular em sua grade de programação um vídeo sobre prevenção do suicídio produzido pela Associação Brasileira de Psiquiatria.
A produção informa, entre outros dados, que a cada dia 24 pessoas morrem por suicídio no Brasil. Por meio de números como este, o vídeo destaca a importância do tratamento às pessoas com doença mental e faz parte da campanha “Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir”.
Assim a Associação Brasileira de Psiquiatria concretiza uma das suas principais missões: atuar junto à sociedade no objetivo de esclarecer a população sobre a alta incidência dos transtornos mentais e a respeito da importância de procurar ajuda médica.
O material é uma importante ferramenta na luta contra o estigma da área psiquiátrica e está disponível no site da ABP Comunidade. Para assistir ao vídeo pela internet, acesse:
http://www.abpcomunidade.org.br/campanhas/
A produção informa, entre outros dados, que a cada dia 24 pessoas morrem por suicídio no Brasil. Por meio de números como este, o vídeo destaca a importância do tratamento às pessoas com doença mental e faz parte da campanha “Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir”.
Assim a Associação Brasileira de Psiquiatria concretiza uma das suas principais missões: atuar junto à sociedade no objetivo de esclarecer a população sobre a alta incidência dos transtornos mentais e a respeito da importância de procurar ajuda médica.
O material é uma importante ferramenta na luta contra o estigma da área psiquiátrica e está disponível no site da ABP Comunidade. Para assistir ao vídeo pela internet, acesse:
http://www.abpcomunidade.org.br/campanhas/
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Pensamento
"A ciência não torna impossível acreditar em deus. Simplesmente torna possível não acreditar em deus."
(de Steven Weinberg, físico estadunidense, prêmio Nobel de Física em 1979, membro da Royal Society of London e da U.S. National Academy of Science).
(de Steven Weinberg, físico estadunidense, prêmio Nobel de Física em 1979, membro da Royal Society of London e da U.S. National Academy of Science).
terça-feira, 6 de julho de 2010
Pacientes que não tive 04: Genghis Khan
Deixando de lado os aspectos éticos e morais da questão, essa estratégia de massacre e estupro se mostrou darwinianamente imbatível, seus genes continuam imperando.
Fontes:Zerjal, T., et al. (17 de janeiro de 2003). The Genetic Legacy of the Mongols
Derenko M.V., et al. (março de 2007). Distribution of the male lineages of Genghis Khan's descendants in northern Eurasian populations.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Ciência, religião e criacionismo
Nem sempre a luz acaba com as trevas.
Muitas pessoas acreditam que o mundo foi criado há cerca de 4 mil anos, que a evolução das espécies, conforme inicialmente proposto por Darwin em 1859, não passa de uma "teoria" (fantasiosa), e que é perda de tempo discutir a respeito, pois a verdade já foi estabelecida por seus profetas, sejam eles santos, pastores ou divindades. Mais grave do que ignorância, ou seja, desconhecimento, desinformação, falta de instrução; estas posturas, a meu ver, se aproximam mais da doença mental, da patologia do pensamento, da psicopatologia.
A psiquiatria tem estudado esta questão. Para quem se interessar, ofereço o link para uma matéria a respeito publicada na Revista de Psiquiatria Clínica (Numbers RL / Rev Psiq Clín. 2009;36(6):246-51):
http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol36/n6/250.htm
(Este artigo é baseado numa conferência proferida em 11 de maio de 2006 no Howard Building do Downing College na Universidade de Cambridge, Reino Unido).
Muitas pessoas acreditam que o mundo foi criado há cerca de 4 mil anos, que a evolução das espécies, conforme inicialmente proposto por Darwin em 1859, não passa de uma "teoria" (fantasiosa), e que é perda de tempo discutir a respeito, pois a verdade já foi estabelecida por seus profetas, sejam eles santos, pastores ou divindades. Mais grave do que ignorância, ou seja, desconhecimento, desinformação, falta de instrução; estas posturas, a meu ver, se aproximam mais da doença mental, da patologia do pensamento, da psicopatologia.
A psiquiatria tem estudado esta questão. Para quem se interessar, ofereço o link para uma matéria a respeito publicada na Revista de Psiquiatria Clínica (Numbers RL / Rev Psiq Clín. 2009;36(6):246-51):
http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol36/n6/250.htm
(Este artigo é baseado numa conferência proferida em 11 de maio de 2006 no Howard Building do Downing College na Universidade de Cambridge, Reino Unido).
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Traição: o homem é sempre o culpado
É indiscutível que, nas últimas décadas, houve uma transformação profunda nas relações conjugais e no comportamento sexual da sociedade.No entanto, na questão da infidelidade, ainda existe um privilégio masculino. O homem é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição.A mulher, até mesmo quando trai, assume a posição de vítima. Entre indivíduos das classes médias do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem traído seus parceiros. Apesar de estarem quase empatados, eles e elas apresentam motivos bem diferentes para trair. Homens dizem que amam e desejam as esposas, mas não resistem ao instinto, à aventura, atração, vontade, oportunidade, vocação. Mulheres dizem que traíram por insatisfação com o parceiro, autoestima baixa, vingança ao ter sido traída, por não se sentir mais desejada pelo marido ou por falta de atenção, conversa, carinho, romance, intimidade. Homens se justificam por meio de uma suposta natureza propensa à infidelidade. Mulheres dizem que seus parceiros, com suas inúmeras faltas, são os verdadeiros responsáveis por suas traições.Portanto, a culpa é sempre do homem, seja por sua natureza incontrolável que o impele a ser infiel, seja por seus defeitos que causam a infidelidade feminina.
O discurso de vítima de muitas mulheres, não se assumindo como responsáveis pelos próprios desejos, reforça a lógica da dominação masculina em nossa cultura.
Extraído da Folha de São Paulo, caderno equilíbrio, ontem (autoria de Mirian Goldenberg)
O discurso de vítima de muitas mulheres, não se assumindo como responsáveis pelos próprios desejos, reforça a lógica da dominação masculina em nossa cultura.
Extraído da Folha de São Paulo, caderno equilíbrio, ontem (autoria de Mirian Goldenberg)
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Carpe Diem
"...quam minimum credula posterum!" (e confia o mínimo possível nos dias posteriores!)
Assim soa a famosa citação completa do poeta romano Horácio. Marca o fim de um poema em que ele adverte o fictício Leucônoe contra o futuro. Deve viver de forma sensata o presente, e utilizar bem o seu tempo. O lema sempre foi retomado, por exemplo, no barroco pelo poeta Martin Opitz (1597-1639), que intitulou um de seus poemas dessa forma, como no belíssimo filme "A sociedade dos poetas mortos", de 1989, onde os fãs do seriado "House" podem admirar o início da carreira do dr. James Wilson, interpretado por Robert Sean Leonard, ainda adolescente.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Pacientes que não tive 03: Leon Tolstói
Mas também tinha algumas idéias estranhas: pregou a abstinência sexual entre casais na “Sonata a Kreutzer” de 1889, ao mesmo tempo que nascia seu 13º filho... Recusava os serviços dos criados, não queria ter servos. Tentou viver como um mendingo, até ser desmascarado. Foi impedido pela família a se desfazer de suas posses, como queria. Calado pelo governo, excomungado pela Igreja, criticado pela família, fugiu de tudo, morrendo em 1910, próximo da aldeia que o inspirou.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Religião, o inimigo de Freud.
"Já uma vez antes, como crianças de tenra idade, nos encontramos em semelhante estado de desamparo, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, contudo estávamos certos de sua proteção. Com relação à distribuição dos destinos, persiste a desagradável suspeita de que a pereplexidade e o desamparo da raça humana não podem ser remediados. Isto justifica o anseio do homem pelo pai e pelos deuses, que mantém sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, particularmente a demonstrada pela morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida lhe impôs. Assim se criou a religião, da necessidade que tem o homem de tolerar o desamparo, e construída com o material das lembranças do desamparo de sua própria infancia, na continuação de um protótipo infantil universal."
(Sigmund Freud, O Futuro de uma Ilusão)
"[É] possível atrever-se a considerar a neurose obsessiva como o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma forma de religiosidade individual, e a religião como uma neurose obsessiva cultural."(Sigmund Freud, Atos obsessivos e práticas religiosas)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Coisa de louco: Romênia
O país tem esse nome por já ter sido “terra de romanos”, sofreu disputas territoriais entre turcos otomanos, russos e Habsburgos. Local tenebroso, a Transilvânia é a terra de Conde Drácula, e recentemente parecia mesmo um hospício. Encontra-se no fundo do poço da Europa, com índices sociais inferiores aos da Líbia, PIB per capita abaixo ao da Namíbia. Dez por cento da população são ciganos analfabetos. Nicolae Ceausesco, governando de 1965 a 1989, achou que uma solução seria o aumento da população. Assim, proibiu todos os métodos anticoncepcionais e de controle de natalidade. Mulheres em idade fértil eram obrigadas a se submeter a exames médicos periódicos a fim de que não fosse possível esconder uma gravidez, pois o aborto também era proibido. Os médicos em cujos distritos se constatava redução da taxa de natalidade tinham cortes nos salários. Isso se deu, repare, na mesma época da revolução social, sexual, de costumes do ocidente. O povo era obrigado a usar lâmpadas de 40 watts em casa, para economizar. A obrigação de trabalho medieval da corvéia (aos domingos e feriados) ainda existia. Durante a II Guerra, os romenos foram tão sádicos no tratamento dispensado aos judeus, que até os alemães reclamaram. Em 2001 carros puxados por cavalos eram mais numerosos do que os a gasolina, existia um programa oficial do governo para substituir carros por carroças.
Ceaussescu foi executado no Natal de 1989.
Baseado no livro "Reflexões Sobre um Século Esquecido" do historiador Tony Judt, recém-lançado no Brasil
Ceaussescu foi executado no Natal de 1989.
Baseado no livro "Reflexões Sobre um Século Esquecido" do historiador Tony Judt, recém-lançado no Brasil
sábado, 12 de junho de 2010
Pacientes que não tive 02: Schopenhauer
Schopenhauer. Meu filósofo favorito (1788-1860). Absoluta e constantemente pessimista, já me fez pensar que a depressão não deveria ser considerada uma doença, mas sim um sinal de inteligência ou lucidez.
“Podemos classificar a vida como um episódio que perturba inutilmente a bem-aventurada tranqüilidade do nada. A existência humana deve ser alguma espécie de equívoco, pois se hoje já é ruim, a cada dia torna-se pior, até que o pior do pior aconteça. A vida é tão desolada, curta e duvidosa, que não vale grandes esforços, é mantida por ilusões. Se a existência fosse uma condição agradável, todos relutariam em entregar-se ao estado de inconsciência do sono e dele despertariam com alegria. Mas acontece justamente o contrário. As pessoas anseiam pela hora de dormir e, pela manhã, despertam contrariadas.” Permaneceu solteiro, pois “casar significa fazer todo o possível para tornar-se objeto de uma aversão recíproca”. Acreditava que o desejo nos movia em direção à melancolia o que, dizia, ficava claro na lassidão dos casais após o sexo: “Imediatamente após a cópula, ouvem-se as gargalhadas do Diabo”. Pensar no resultado de tratá-lo é interessante... O quanto ele poderia melhorar, e o quanto me deixaria pior? Com essa cara feia assim, sei não...
“Podemos classificar a vida como um episódio que perturba inutilmente a bem-aventurada tranqüilidade do nada. A existência humana deve ser alguma espécie de equívoco, pois se hoje já é ruim, a cada dia torna-se pior, até que o pior do pior aconteça. A vida é tão desolada, curta e duvidosa, que não vale grandes esforços, é mantida por ilusões. Se a existência fosse uma condição agradável, todos relutariam em entregar-se ao estado de inconsciência do sono e dele despertariam com alegria. Mas acontece justamente o contrário. As pessoas anseiam pela hora de dormir e, pela manhã, despertam contrariadas.” Permaneceu solteiro, pois “casar significa fazer todo o possível para tornar-se objeto de uma aversão recíproca”. Acreditava que o desejo nos movia em direção à melancolia o que, dizia, ficava claro na lassidão dos casais após o sexo: “Imediatamente após a cópula, ouvem-se as gargalhadas do Diabo”. Pensar no resultado de tratá-lo é interessante... O quanto ele poderia melhorar, e o quanto me deixaria pior? Com essa cara feia assim, sei não...
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Chapéuzinho Vermelho
-Que orelhas enormes a Sra. Tem, Vovó...
-São para te ouvir melhor, minha netinha!
-Para que é esse nariz enorme?
-Prá te cheirar melhor, queridinha...
-E para que é essa boca enorme?
-Prá te COMER melhor, minha linda !!!
Quando Chapéuzinho sai da segurança de sua casa para a floresta, recebe um aviso de sua mãe, para que siga pelo caminho seguro, e não se desvie, pois ela conhece bem os perigos que rondam sua ingenuidade, sabe do risco representado por lobos educados, de fala mansa. Ao encontrar o lobo na floresta, este não pode devorá-la, pois há lenhadores nas redondezas. Na presença de adultos responsáveis, o lobo nada tenta, astutamente perguntando então para onde ela vai, a fim de segui-la. Desvia sua atenção para as belezas da natureza, com intuito de distraí-la e atrasá-la. Despreocupada, Chapéuzinho se atrasa e chega depois que vovó já foi devorada pelo lobo, que a aguarda.
É então que acontece o interessante duelo verbal a respeito de partes grandes e peludas do corpo do Lobo Mau. São verdadeiras preliminares, nas quais o que seduz não são os atributos físicos, mas sim as intenções ocultas dele. Intrigada pelo desejo do lobo, a criança se fascina com a intuição de que existe algo de muito interessante que anima o mundo dos adultos, algo relacionado com o perigo que as meninas inocentes correm, quando, apesar de virtuosas e obedientes, se descuidam dos conselhos da mãe, ou se desviam do caminho traçado. Agora não há adultos responsáveis por perto para protegê-la, nem mãe, nem avó, nem lenhador. Há algo de misterioso no lobo que a atrai, é por isso que ele é tão perigoso. Sua mãe já sabia disso. Na verdade não só sabia, como também o previra e queria evitá-lo, o que é inútil, pois esse encontro está fadado a algum dia,fatalmente acontecer. No final, Chapéuzinho é retirada de dentro da barriga do lobo pelo lenhador.
No conto, são descritas três gerações femininas: filha, mãe e avó. A figura do pai não é diretamente mencionada, embora presente, de forma velada em suas duas fortes naturezas opostas e contraditórias. A versão responsável, respeitosa e salvadora (o lenhador); e seu oposto, perigoso, sedutor, inaceitável, o lobo. Todo homem, dentre eles o pai, carrega um animal escondido dentro de si. A criança tenta decodificar o código de organização sexual secreto dos adultos. Quem pode casar com quem? Porque vovó e as crianças estão excluídos? Qual o Caminho seguro?
Uma crise existencial é ultrapassada. Chapéuzinho Vermelho perde a inocência infantil quando se encontra com os perigos do mundo (e de dentro de si mesma), cai na conversa do lobo e é devorada; mas renasce, ao ser retirada de barriga dele pelo lenhador: não como a criança que era, mas como a donzela que se tornou.
-São para te ouvir melhor, minha netinha!
-Para que é esse nariz enorme?
-Prá te cheirar melhor, queridinha...
-E para que é essa boca enorme?
-Prá te COMER melhor, minha linda !!!
Quando Chapéuzinho sai da segurança de sua casa para a floresta, recebe um aviso de sua mãe, para que siga pelo caminho seguro, e não se desvie, pois ela conhece bem os perigos que rondam sua ingenuidade, sabe do risco representado por lobos educados, de fala mansa. Ao encontrar o lobo na floresta, este não pode devorá-la, pois há lenhadores nas redondezas. Na presença de adultos responsáveis, o lobo nada tenta, astutamente perguntando então para onde ela vai, a fim de segui-la. Desvia sua atenção para as belezas da natureza, com intuito de distraí-la e atrasá-la. Despreocupada, Chapéuzinho se atrasa e chega depois que vovó já foi devorada pelo lobo, que a aguarda.
É então que acontece o interessante duelo verbal a respeito de partes grandes e peludas do corpo do Lobo Mau. São verdadeiras preliminares, nas quais o que seduz não são os atributos físicos, mas sim as intenções ocultas dele. Intrigada pelo desejo do lobo, a criança se fascina com a intuição de que existe algo de muito interessante que anima o mundo dos adultos, algo relacionado com o perigo que as meninas inocentes correm, quando, apesar de virtuosas e obedientes, se descuidam dos conselhos da mãe, ou se desviam do caminho traçado. Agora não há adultos responsáveis por perto para protegê-la, nem mãe, nem avó, nem lenhador. Há algo de misterioso no lobo que a atrai, é por isso que ele é tão perigoso. Sua mãe já sabia disso. Na verdade não só sabia, como também o previra e queria evitá-lo, o que é inútil, pois esse encontro está fadado a algum dia,fatalmente acontecer. No final, Chapéuzinho é retirada de dentro da barriga do lobo pelo lenhador.
No conto, são descritas três gerações femininas: filha, mãe e avó. A figura do pai não é diretamente mencionada, embora presente, de forma velada em suas duas fortes naturezas opostas e contraditórias. A versão responsável, respeitosa e salvadora (o lenhador); e seu oposto, perigoso, sedutor, inaceitável, o lobo. Todo homem, dentre eles o pai, carrega um animal escondido dentro de si. A criança tenta decodificar o código de organização sexual secreto dos adultos. Quem pode casar com quem? Porque vovó e as crianças estão excluídos? Qual o Caminho seguro?
Uma crise existencial é ultrapassada. Chapéuzinho Vermelho perde a inocência infantil quando se encontra com os perigos do mundo (e de dentro de si mesma), cai na conversa do lobo e é devorada; mas renasce, ao ser retirada de barriga dele pelo lenhador: não como a criança que era, mas como a donzela que se tornou.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A imensa distância entre discurso e fato.
O mundo não é bom. É um lugar hostil, no qual temos de lutar incessantemente pela sobrevivência, que se faz às custas da morte de outros. É um lugar onde sobrevivem os mais fortes, astutos e inteligentes. Não há lugar para os fracos. Embora não seja bom, o mundo também não é mau. Simplesmente ele é indiferente. Indiferente ao sofrimento das criaturas. Não é nada amoroso. Por isso que se fala tanto em filosofias de piedade e amor ao próximo. É evidente que se esse amor existisse mesmo, não se precisaria fazer tanta demagogia ou alarde a respeito de sua existência ou valor.
“Tantos escravos foram embarcados na ilha de Moçambique que um tronco de mármore foi erguido na praia, diante do palácio. Era ali que o bispo se postava, diante dos escravos acorrentados, sacudindo as mãos para convertê-los ao Cristianismo. Assim, se morressem na viagem, antes de chegar à América, iriam para o Céu. Era uma prudente precaução, porque os navios partiam tão atulhados que trinta a quarenta por cento dos escravos morria. Seus corpos eram jogados ao mar. Mas todos, graças a Deus, teriam o privilégio de morrer como bons cristãos.”
Entre haspas, trecho extraído do romance "Os Rebeldes", de James A. Michener, do qual sou fã, autor dos melhores romances históricos que li, e que recomendo a todos.
“Tantos escravos foram embarcados na ilha de Moçambique que um tronco de mármore foi erguido na praia, diante do palácio. Era ali que o bispo se postava, diante dos escravos acorrentados, sacudindo as mãos para convertê-los ao Cristianismo. Assim, se morressem na viagem, antes de chegar à América, iriam para o Céu. Era uma prudente precaução, porque os navios partiam tão atulhados que trinta a quarenta por cento dos escravos morria. Seus corpos eram jogados ao mar. Mas todos, graças a Deus, teriam o privilégio de morrer como bons cristãos.”
Entre haspas, trecho extraído do romance "Os Rebeldes", de James A. Michener, do qual sou fã, autor dos melhores romances históricos que li, e que recomendo a todos.
domingo, 6 de junho de 2010
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
(Vinícius de Moraes)
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
(Vinícius de Moraes)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Pacientes que não tive 01: Gauguin
Em 08/05/1903, o bispo das Ilhas Marquesas, pouco caridosamente, testemunhou a morte de “um artista conhecido, porém inimigo de Deus”. Era o fim de Paul Gauguin, aos 54 anos , solitário, pobre e sifilítico numa cela de prisão.
Artista tão pouco convencional em sua arte como em sua vida, aos 35 anos abandonou uma respeitável e próspera carreira na bolsa de valores, sua esposa e seus cinco filhos, trocando a segurança material na França, por uma vida cheia de contradições e episódios apaixonantes nos mares do Pacífico sul. O desejo de liberdade no plano artístico e no existencial o marginalizou da sociedade. Não se adaptava aos rígidos hábitos vitorianos, nem à sua hipocrisia. Decidiu viver como “um nativo”. Viveu na Bretanha, no Panamá e Taiti, buscando uma vida tranqüila e paradisíaca, junto a culturas primitivas, “puras”, intocadas pela sociedade “civilizada”.
Na evolução de seu estilo, percebemos um abandono gradual das paisagens por um interesse progressivo em figuras humanas, femininas, morenas, nuas. Ele pintou Annah, a Javanesca, uma “exuberante mulata de olhos incandescentes”. Em 1892, retratou sua nova mulher, Teha’amana, uma silvícola de 13 anos, nua, maravilhosamente esparramada na cama.
Empregou um colorido vibrante, irreal, para expressar, com emoção intensa, a beleza e os mistérios vivenciados. Ao saber da morte de sua distante filha, Aline, aos 20 anos, entrou num período sombrio, triste, durante o qual criou a obra-prima “De onde viemos? Que somos? Para onde vamos?” (1897), seu testamento artístico final, questionando a finalidade da existência humana. Doente, empobrecido, tentou o suicídio ingerindo arsênico. Morreu solitário, de sífilis, cumprindo pena por atos obscenos, na prisão.
Artista tão pouco convencional em sua arte como em sua vida, aos 35 anos abandonou uma respeitável e próspera carreira na bolsa de valores, sua esposa e seus cinco filhos, trocando a segurança material na França, por uma vida cheia de contradições e episódios apaixonantes nos mares do Pacífico sul. O desejo de liberdade no plano artístico e no existencial o marginalizou da sociedade. Não se adaptava aos rígidos hábitos vitorianos, nem à sua hipocrisia. Decidiu viver como “um nativo”. Viveu na Bretanha, no Panamá e Taiti, buscando uma vida tranqüila e paradisíaca, junto a culturas primitivas, “puras”, intocadas pela sociedade “civilizada”.
Na evolução de seu estilo, percebemos um abandono gradual das paisagens por um interesse progressivo em figuras humanas, femininas, morenas, nuas. Ele pintou Annah, a Javanesca, uma “exuberante mulata de olhos incandescentes”. Em 1892, retratou sua nova mulher, Teha’amana, uma silvícola de 13 anos, nua, maravilhosamente esparramada na cama.
Empregou um colorido vibrante, irreal, para expressar, com emoção intensa, a beleza e os mistérios vivenciados. Ao saber da morte de sua distante filha, Aline, aos 20 anos, entrou num período sombrio, triste, durante o qual criou a obra-prima “De onde viemos? Que somos? Para onde vamos?” (1897), seu testamento artístico final, questionando a finalidade da existência humana. Doente, empobrecido, tentou o suicídio ingerindo arsênico. Morreu solitário, de sífilis, cumprindo pena por atos obscenos, na prisão.
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