sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Fórmula 1: Circo para Idiotas

 

Uma multidão de adultos infantilizados vai invadir a região de Interlagos, em São Paulo, neste final de semana. São crianças crescidas que continuam gostando de brincar de autorama. Nos casos mais grotescos, vem de regiões distantes, de outros estados, até de outros países. Falta algo na cabeça de alguém que paga uma fortuna por um ingresso para ficar horas ao sol (desta vez deve ter chuva) vendo o vulto de carrinhos correndo, um querendo ser mais rápido que o outro; com pilotos vestidos como astronautas, deusinhos de um mundo inacessível, de sonho e glamour, repleto de mulheres gostosas e oferecidas. Um mundo do qual o expectador não passa de um excluído de classe inferior, um reles humano, babando de inveja de seus “heróis” (intimamente sempre torcendo para ver um acidente sangrento e com morte).
Pessoas com baixa auto-estima e tendência ao puxassaquismo são capazes de ficar de quatro para lamber o chão por onde passam seus ídolos automotivos. As mulheres que se exibem seminuas ao lado dos carros seriam capazes de transar com os seus parafusos, fingindo orgasmos magníficos. Quanta gente não tenta se aproximar desse circo. Somas incalculáveis de recursos que poderiam ser úteis para a sociedade são torradas nesta idiotice. O Coliseu e seus Gladiadores só mudaram de roupa. A máxima romana continua valendo: Pão e Circo para os idiotas.

sábado, 10 de novembro de 2012

Lipoaspiração Divina

 

Perder peso ficou mais fácil. Já é possível perder 5 kg, ou mais, em apenas uma hora, sem dietas, sem remédios, sem sofrimento. Esqueça os conselhos dos médicos para deixar os chocolates, pizzas e picanhas. Deus ouviu o lamento dos homens (e principalmente das mulheres) e, em sua infinita bondade, decidiu que já é hora de livrá-los da gordura e da celulite. Emagrecimento saudável e instantâneo. Os milagres de emagrecimento tiveram início na cidade de Cariacica, próxima a Vitória. Lá, na Igreja Casa da Benção, o pastor César Peixoto observou que, após suas vigílias, as pessoas sentiam suas roupas mais folgadas. Foi aprimorando seus sermões até chegar ao que chama de “Lipoaspiração Divina”. Seus cultos são um sucesso, cada vez mais animados e concorridos. Lotados de gordinhas, aos gritos de “saia, gordura, desse corpo que não te pertence em o nome de O Senhor Jesus”. Os testemunhos são encorajadores.
A comerciante Gabriela Cordeiro, de 35 anos relata que “com a lipoaspiração divina, recuperou sua forma física, sua auto estima, e seu namorado. Graças a Deus!”.A estudante Miriam Bestowska começou a frequentar os cultos: “Sou muito gostosa, não preciso emagrecer, mas sinto que sempre saio dos cultos, de alguma forma mais leve”. As fiéis estão extasiadas...
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Lipoaspiração Macabra


                               
Estou para conhecer homem (artigo cada vez mais raro, segundo fontes seguras... homem que goste de mulher, não gay, nem crente fanático) que ache que a mulher da foto precisasse de retoques cirúrgicos, lipoaspiração, cirurgia de estômago ou coisa parecida. Só o cirurgião que a matou (provavelmente por que estava pensando nos seus honorários, e não no interesse dela) achou que ela precisasse de algo além de uma dieta balanceada e atividade física regular. Eu me arriscaria a sugerir uma produção leve, um pouco mais de recato e um namorado divertido, que gostasse de brincar com seu umbigo. Se me fosse solicitado, eu sugeriria aspirar o cérebro do cirurgião, não o corpo de Pamela Baris.
Nossa cultura produziu uma triste legião de mulheres insatisfeitas com o próprio corpo, que invadem consultórios onde cirurgias plásticas e lipos são sorteadas pela loteria, financiadas a crédito consignado, negociadas assim como cachos de banana na feira, prometidas como a solução de todos os problemas “afetivos”. Existem anúncios obscenos oferecendo cirurgias em consórcio, como se fosse uma moto ou um carro, um sonho de consumo. Algumas mulheres trocam próteses mamárias com a facilidade com que outras trocam de sutiã.
Qualquer homem em sã consciência adoraria apalpar as “gordurinhas” que ela resolveu lipoaspirar. Pode ser que algo lhe faltasse, como falta a todos nós, pois todos somos menos bonitos do que gostaríamos, menos inteligentes, menos justos, menos corajosos, menos competentes, menos felizes. Ser humano é ser sempre menos do que gostaríamos. Lidar com isso não é da competência da anestesia, do bisturi, da tesoura. Há algo de profundamente errado no fato de se exigir a beleza física onde ela não está, não enxergá-la onde ela existe, e colocar a vida em risco na sua procura.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Espiritismo Canino


Após milhares de anos sendo progressivamente domesticados, depois de conquistar o direito de morar nas casas dos homens, comer de suas comidas, ter acesso a tratamentos médicos, xampus e spas, nossos irmãos animais finalmente podem contar com assistência religiosa-espiritual. A ASSEAMA (Associação Espírita Animal), seguindo a linha Kardecista, é um centro espírita totalmente voltado para a espiritualidade pet, e chegou para trazer conforto aos bichinhos que sofrem. O diretor da entidade, Gilberto Marques, após proferir uma palestra aos cães, que a assistem sem latir ou brigar (lembre que o ambiente é espiritualmente evoluído), “conversa” com cada cão e gato individualmente (até com passarinhos e tartarugas), para saber o que os incomoda, e assim fazer um diagnóstico preciso de seu mal, prescrevendo a seguir o número de passes indicado para cada enfermidade. O passe é rápido e indolor, feito por médiuns experientes e suas mãos energizadas (os cães costumam adorar). Não se garante a cura, mas sim a evolução, conforme nos ensinou André Luiz: “a zoologia também é objeto do zelo dos planos espirituais” (Livro: Conduta Espírita – Autor Espiritual: André Luiz – Psicografia: Waldo Vieira – Capítulo: 33). A recomendação de Emmanuel, de que o atendimento espiritual aos animais se fizesse apenas à distancia, encontra-se hoje superada. Já é possível frequentar sessões espíritas que recebem exclusivamente a visita de espíritos animais, é possível até identificar seus latidos e ganidos, através da boca dos médiuns, espetáculo impressionante e inesquecível.
A aposentada Maria do Carmo Silva, que levou seu poodle Wellington para um tratamento, garante que o resultado foi ótimo: “Eu era cética, mas o Wellington melhorou muito, parou de se masturbar em minhas pernas e de comer suas próprias fezes. Agora, eu recomendo os passes da ASSEAMA para todos os cães vítimas de obsessões”.
O centro localiza-se no Tucuruvi, mas o espaço físico não é um problema para os espíritos. Você também pode contar com assistência espiritual telepática, basta acessar o site: http://www.asseama.com.br/

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dia do Médico

 
Amo e me orgulho de minha profissão.
Mas não me deixo esquecer que nem sempre os médicos tem o reconhecimento que merecem.
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pacientes que não tive (33): as falsas videntes presas em São Paulo


Aconteceu no bairro de Campo Belo: um publicitário de 34 anos foi abordado por duas videntes na rua. Helena Aristides (“mãe Sara”) e Nádia Angélica Marcos; graças a seus poderes mediúnicos, sendo “sensitivas” em contato com o além, o alertaram que corria perigos. Assustado, ele tirou 5 mil reais da poupança que tinha, e fez um empréstimo de mais 10 mil no banco, entregando tudo às médiuns para que não ficasse com “a vida emperrada”. Duas semanas após a conclusão dos trabalhos, depois de pensar um pouco (algo difícil para um imbecil, mesmo para um imbecil publicitário), ele se arrependeu, pediu o dinheiro de volta, mas elas se recusaram a devolver, alegando terem feito trabalhos espirituais sofisticados, coisa complicada, de merecidos honorários. Argumentaram que lidar com esses assuntos requer muito estudo e treinamento.
Há poucos dias as duas videntes foram presas, acusadas de charlatanismo . Eu pergunto: existe algum vidente que não é charlatão? Alguém conhece um vidente ou médium “sério”? Quem é assim tão sábio para determinar qual vidente é vidente de verdade, e qual é vidente de mentira? Os classificados de jornais e revistas estão repletos de anúncios de videntes, tarólogas, jogadores de búzios, que tiram dinheiro de pessoas fragilizadas. Jornais consagrados publicam colunas diárias de astrólogos “sérios”. Se eu pagar 15 mil reais para o Oscar Quiroga fazer meu mapa astral e depois me arrepender, posso mandá-lo para a cadeia por isso? Sei de médicos que encaminham doentes para tratar problemas físicos com sessões de “cura e descarrego”. Já ouvi que um psiquiatra atende esquizofrênicos, dizendo incorporar o espírito de São Lucas. Quantas pessoas não pagam fortunas para pastores de Igrejas Evangélicas, e ao se arrependerem, não tem direito a nada de volta?
Neste mundo, cheio de imbecis, eu defendo o direito que qualquer pessoa tem de ser idiota da maneira que lhe agradar. Na Igreja Evangélica, no centro espírita, no prostíbulo, na boca de fumo da favela ou no terreiro de umbanda, ninguém é obrigado a entrar. Entra quem quer. Paga quem quiser. Recebe de volta aquilo que merece e procurou. O mundo nunca foi justo mesmo... enquanto Edires Macedos enriquecem ostensivamente, alguém se dá ao trabalho de botar essa pobre bruxinha na cadeia. Mania de procurar culpados pela desgraça da condição humana. O maior inimigo de um idiota é ele mesmo. Deixem as videntes em paz!
(Na foto: Mãe Diná, vidente famosa, sob um fluxo de ectoplasma)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Dia Mundial Sem Carro, candidata Soninha e Golfinhos no Tietê


Chegou o Dia Mundial Sem Carro. Maravilha! Vamos todos andar a pé. Faz bem para o colesterol e para quem tem tirÓide.
Felizes nesta data estão os eleitores de Soninha, na piscina do condomínio, pegando um bronze que combine com a roupinha recém-chegada da Daslu, pensando em como melhorar o mundo, enquanto outras pessoas trabalham. Ela prometeu contribuir com a luta contra o aquecimento do planeta: “é possível”, ela disse. Vai fechar a Rodovia dos Imigrantes e transformá-la numa plantação de alface orgânico, movida a energia solar limpa, com a ajuda de voluntários esclarecidos, gente moderna. Ainda vão despoluir o Tietê e enchê-lo de golfinhos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ciclofaixas e Idiotas


No Guarujá, onde os pobres usam bicicletas para ir ao trabalho, existem ciclovias apenas onde os ricos se dedicam ao lazer. No bairro de Moema, em São Paulo, onde os ricos que vão ao Guarujá se divertir nos fins de semana, trabalham durante os dias úteis, qualquer um pode ver uma “ciclofaixa cidadã”, abandonada e esquecida, sem uso, sequer por pobres, atrapalhando a vida de quem quer circular para fazer coisas produtivas, como trabalhar. Como disse Luiz Felipe Pondé, hoje na Folha: “Interessante como gente pobre sempre andou de bicicleta, mas agora, quando a bicicleta virou “bike”, virou assunto de prefeitura”. Quem faz apologia do ciclismo em São Paulo, como alternativa séria ao problema de transporte da cidade, ou é político (profissional da mentira), ou idiota querendo ser chique, pois um infeliz fracassado e excluído, incompetente a ponto de não conseguir comprar sequer um carro nem pensa nessas bobagens, só se ferra...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Você, que vive infeliz, sentindo que a vida é um inferno, que pensa no suicídio como solução para seus problemas, precisa saber que existe solução. É preciso algum sacrifício, ou seja, renunciar voluntariamente a alguma coisa, em troca de outra mais importante. Como o jovem estudante, que renuncia ao prazer de passear, pelo estudo, o que lhe garantirá recompensas maiores no futuro. Pessoas do mundo inteiro comprovam a cada ano que, o aparentemente impossível pode ser realizado. A Fogueira Santa é um projeto no qual aqueles que creem são convidados a, através da fé, cobrar de Deus Suas promessas. Assim, sonhos são conquistados. Cada um faz o sacrifício de acordo com o que manda seu coração. Aos olhos de Deus, 10 mil reais de um pobre valem muito mais do que 10 milhões de reais de um rico, pois Deus é inteligente o bastante para perceber que o sacrifício do primeiro, proporcionalmente é muito maior. Através da doação voluntária de dinheiro, desde que feita com felicidade, o cristão prova a Deus que sua fé é real, e não apenas discurso vazio, da boca para fora, algo tão comum numa sociedade que vive de aparências.
Sempre na vanguarda e pensando em facilitar sua vida, a Igreja Universal do Reino de Deus permite que você envie agora mesmo seu sacrifício a Deus, através do link:  http://doacao.arcauniversal.com/Default.htm
Sua doação pode ser feita por Boleto bancário, ou pelos cartões Visa, Master e Diners. E você ainda tem a vantagem de escolher o destino de seu dinheiro, que pode ser convertido em dízimo básico, mas também destinada à construção de templos ou evangelização em rádio e TV. Seja um internaura missionário e ajude a espalhar a palavra de Deus por toda a internet, levando àqueles que vivem na angústia e na dor, a vida abundante prometida pelo senhor Jesus.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

As drogas e o canto das sereias


Terrível era o destino dos navegantes que encontrassem sereias em seu caminho. Ao ouvir seu irresistível canto, embalados por sua beleza, eles se atiravam enlouquecidos ao mar, onde se afogavam. Por isso, homens do mar experientes as evitavam. Mas o astuto Ulisses, herói da Odisséia, era um homem de interesses insaciáveis e, ao voltar da guerra de Tróia, quis correr o risco de conhecer o que de tão perigoso havia nesse (en)canto. Ao invés de desviar delas, resolveu conhecê-las. Seu plano era simples, foi firmemente amarrado ao mastro de seu navio, enquanto sua tripulação continuava remando, com os olhos fixos no chão e ouvidos tapados com cera, protegidos assim dos sons e imagens das sereias. A ideia seria que, durante a passagem do barco pelo território delas, apenas Ulisses, amarrado e impotente, pudesse contemplar seus feitiços e ter uma ideia de sua força. E assim foi. Homero nos relata que ao ouvir os cantos das sereias, Ulisses arrependido de seu plano, mudou de ideia, e quis se soltar. Não conseguindo, ficou furioso, se descontrolou, gritava, berrava e implorava para sua tripulação (que não o podia ouvir) que o libertasse das cordas, pois ele preferia se atirar desesperadamente ao mar, e ficar ali com aquelas sensações maravilhosas, até então desconhecidas e inimagináveis, mesmo que isso lhe custasse a vida. E era verdade, se tivesse sido solto ele se atiraria ao mar por vontade própria, para morrer com as sereias. Mas o barco passou, e Ulisses se viu livre do encanto para seguir não só a viagem, mas sua vida.

Toda a Odisséia, que narra a fantástica viagem de Ulisses de volta para Ítaca, após a guerra de Tróia, em meio a perigos e criaturas fantásticas, nada mais é do que a história de um homem tentando voltar para o aconchego do lar e o convívio da família, após um cansativo dia de trabalho. Em nossa jornada diária, nos deparamos com obstáculos e dificuldades, que às vezes parecem monstruosas e intransponíveis, como os Cíclopes e monstros da Odisséia.
A imagem do canto das sereias é ótima para ilustrar um problema de abordagem delicada. Falar sobre “drogas” pode ser difícil, primeiro porque é preciso discuti-las individualmente, cada uma traz questões peculiares. Os problemas decorrentes do uso de maconha são muito diferentes daqueles da cocaína, e assim por diante. Grande erro é colocá-las no mesmo “pacote” em uma discussão, o que muitos medrosos e desinformados fazem, e é isso que leva os argumentos dos idiotas que marcham pela maconha parecerem sensatos, misturar alhos com bugalhos, desviar a atenção da verdade que importa.
Nem todos sabem na prática, e não em teoria, o quanto a cocaína pode ser deliciosa; e poucas pessoas conseguem falar abertamente o que pensam sobre isso, sem mentir ou se expor. A cocaína pode ser tão extasiante quanto o canto das sereias, e fazer com que uma pessoa, que não esteja fortemente amarrada ao mastro, perca o rumo e não consiga voltar para casa. Com a maconha os problemas são outros. Quem usa maconha não está nem aí se vai ficar amarrado ao mastro, se vai se soltar, se fica, se vai, ou se foi. Ele vai rir o riso estúpido dos imbecis, numa apatia desapaixonada, independente do que aconteça. 
As sereias possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: o silêncio.
 (Fraz Kafka)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Facebook, o mural da miséria humana.



Um grande professor que tenho, dizia que a miséria humana vem à tona nas delegacias e nos consultórios de psiquiatria. Assombrados como vivemos hoje em dia pela falsa necessidade de permanente conexão à rede; essa mesma miséria humana, antes escondida, está superexposta nos maiores murais da infelicidade humana que já tive o desprazer de conhecer: as famigeradas redes sociais, em particular, o Facebbok, o melhor local para estudar o comportamento do Abominável Homem Conectado.
Humanos que somos, nos sabendo fracos, egoístas e covardes, criamos mitos de deuses incondicionalmente bons, amorosos, tremendamente poderosos (e paradoxalmente humildes). Nestes deuses, os desesperados, quando pouco inteligentes, se apegam, buscando pela salvação, que não virá nunca. Enquanto esperam, demonstram a angústia banal de sua carência afetiva, neste infeliz painel da internet (o Facebook), geralmente de maneira monótona, superficial e pouco criativa, projetando seus pobres sonhos, seus desejos infantis, suas frustrações, na forma de falso otimismo, destemor e segurança. Pelo que escrevem, até poderia parecer que as pessoas se amam,que são boas e ajudam umas às outras. Que acreditam em Deus, que seguem seus mandamentos, e por isso são respeitáveis.
Desconfio muito de gente que fala bem de si mesma e do mundo hostil em que vivemos. Isso explica a repulsa por mensagens pretensamente otimistas.  Fotos de paisagens bonitas, animais felizes em harmonia com árvores frondosas, debaixo de um Sol de brilho quase sorridente, emocionam idiotas românticos aos montes, e ilustram muito bem o desejo de transformar um mundo interno sombrio naquele falso paraíso que vemos nos desenhos de Bíblias para crianças, onde o Leão não é feroz, mas mansamente sorridente, e olha para o veadinho ao seu lado sem a intenção de matá-lo e simplesmente comê-lo, seu real (e negado desejo). A beleza dócil das boas intenções que proliferam no facebook encontra sua contrapartida na solidão de quem nele perde seu tempo.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Casais Felizes



  Reflexões sobre os Casais Felizes
O amor é frágil, sobrevive muito mal à realidade. A felicidade é uma foto sobre uma mesa, em um mundo que adora mentir sobre si mesmo. Olhando a foto do casal feliz acima, percebo como é banal nossa revolta contra a evidente ausência de sentido da vida. Todos nesse momento atiram pedras em Elize Matsunaga, como a reforçar como são diferentes dela. Existe um pacote de mentiras básicas propagadas pelas pessoas que querem ser consideradas felizes por seus próximos. Mais uma forma de intoxicação nas próprias mentiras, desses hipócritas do bem. Quase tudo é farsa na pretensa vida superbem resolvida de gente superlegal, alto-astral, que não trai o cônjuge, que ama as plantas, que protege o planeta das sacolinhas plásticas. Aqueles que trazem no rosto o sorriso idiota da capa dos livros de auto-ajuda, essa praga que ensina as pessoas a serem mais burras do que já são, exalam um fedor que sinto de longe.
Não temos como escapar da maldição da infelicidade, pois, da mesma forma que a dor, ela está programada em nossos genes. Os homens traem muito suas mulheres, isso é uma verdade desagradável, que os escravos da mania de felicidade não gostam de admitir. Existem prostíbulos de luxo em São Paulo, repletos de executivos, cujas esposas estão na academia, ambos traindo um ao outro. Claro que também existem aqueles que são fiéis às esposas, mesmo que isso implique em sua própria infelicidade. Vivem num faz de conta supremo, onde a mentira bonita é preferível ante a nauseabunda condição humana. Pois os seres humanos vivem uma realidade terrível, com medo constante do fracasso, da doença, da mediocridade. Somos vítimas de nossas incontroláveis paixões, de nossa finitude e efemeridade. Seres esquecidos e abandonados à própria sorte, somos como barcos à deriva, navegando sem rumo por um oceano desconhecido, de instintos e impulsos, que fatalmente terminará no envelhecimento, no adoecimento e na morte. Sem opções. Viva tranquilo com isso.
Um limite muito tênue e artificial nos separa desse casal infeliz. Por puro acaso essa mulher foi presa, enquanto outra tão ou mais vagabunda que ela, com um marido tão ou mais imbecil que ele, continuam aprontando por aí. Há mais assassinos soltos do que presos, nesse mundo sem justiça. Esse pobre japonês não tinha capacidade para conquistar e seduzir mulheres com seu charme (o coitado era muito feio), mas como muitos japoneses que eu conheço, se achava irresistível. Suas gorjetas de R$ 27 mil deviam ser mesmo irresistíveis para meninas pobres e gostosinhas. Me dá é pena da putinha que teve o azar de ver morrer a galinha dos ovos de ouro. Não podia acabar bem. Nunca vai acabar bem. Esteja preparado, quando sua vez chegar, e não for mais possível fugir da miséria da existência, aí você entenderá melhor, o que significa ser o habitante de um mundo sem sentido.
Tristeza não tem fim, Felicidade sim. (Vinícius de Moraes)

terça-feira, 5 de junho de 2012

Dia Mundial do Meio Ambiente: a Hipocrisia



Adoro pensar em bobagens. Bobagens repetidas à exaustão, como economia verde, desenvolvimento sustentável e inclusão social, estão na pauta diária de pessoas que se consideram inteligentinhas, mas que no fundo não passam de hipócritas sem opinião própria, repetindo como papagaios o que dita a moda do politicamente correto, para parecerem chiques diante de outras pessoas mais desinformadas do que elas, em rodas pretensamente intelectuais. Eu gosto de conversar com estes bobinhos que defendem uma vida mais “natural”, afinal sou psiquiatra e adoro conversas estranhas. Quem alega que uma vida sem “química” é melhor, como a dos “evoluídos” índios, que vivem em contato com a natureza, deveria ser coerente com seu discurso, e assim, parar de usar sabonete e pasta de dente, que são “artificiais”, e perder os dentes apodrecidos, de maneira bem natural (não existe nada mais artificial do que conservar uma dentição saudável após os 20 anos de idade). Deveria deixar de tomar antibióticos (“químicos”), e preferir o adorável bacilo da tuberculose proliferando em seu pulmão, com maravilhosas tosse e falta de ar. A vida dos índios é uma droga, que eles toleram por absoluta incompetência e falta de opção. Por azar de nascença. Índios vivem mal, comem comidas horríveis, morrem por motivos banais. Dá para acreditar que alguém prefira nascer numa tribo suja, sem conforto, no meio do mato, viver sem acesso à educação feito bicho, ao invés de nascer numa família próspera de um grande centro, comendo bem, conhecendo o mundo, tendo acesso à informação e aos prazeres da vida moderna? Apenas um imbecil, um louco, ou mais provavelmente, um mentiroso. As mentiras bonitas, ditas com orgulho idiota, a fim de causarem boa impressão, nos cercam por todos os lados. A verdade é mais desagradável. O ser humano é egoísta, ambicioso e mesquinho. Por isso o meio ambiente está condenado à degradação total. Também por isso, movidas pela covardia dos culpados, as pessoas tem esse discurso bonitinho. Hipocrisia.
Quem quiser cuidar de reduzir a emissão de carbono faça-me o favor de ir morar no mato, não acender fogueira nem para cozinhar, e leve junto o seu discurso chato.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Branca de Neve e o Caçador


Nasce um bebê. Aquele que se torna objeto da adoração dos pais, que nele tudo investem, está predestinado a substituí-los no futuro, ocupando seu espaço. Isso acontece de forma particularmente dolorosa para as mulheres, como ilustra a fábula de Branca de Neve, um conto antigo, cuja narrativa remonta a séculos na Europa, sendo sua versão cinematográfica dos estúdios Disney, de 1937, a mais conhecida. Seu título moderno é infeliz ao enfatizar os anões, quando o centro da atenção seria o destronamento da madrasta que envelhece, enlouquecida de ciúme, ante o desabrochar da beleza e juventude da filha. É um tratado sobre a tragédia feminina, os poderes, perigos e magia da beleza da mulher e da ruína que ronda o descontrole sobre as paixões, o aniquilamento do ser ante a negação do envelhecimento, da substituição, da finitude. A estória explora os poderes femininos em três gerações. A puberdade, cujo fascínio adolescente repousa inerte, passivo, desarmado, à mercê de nossa idealização, adormecido na caixa de vidro à espera do príncipe. A fase adulta da madrasta, que sabendo-se a mais bela de todas, poderosa, sedutora e desejável, não cansa de repetir a mesma pergunta ao espelho, possível olhar masculino presente na intimidade de seu quarto. Qual a mulher que se cansa de ser admirada? Todos conhecem moças que nunca param de perguntar se ainda são amadas, não adianta repetir isso mil vezes. E por fim, a bruxa, que despojada dos atrativos físicos da juventude possui outros feitiços...
Quando nasce Branca de Neve, sua mãe providencialmente morre para ser substituída pela madrasta, a quem estão todos autorizados a odiar (quem agüenta odiar a própria mãe?). Assim, a madrasta, o espelho na parede e o caçador são os pais disfarçados. Por mais poderosa que seja, a madrasta não convence o caçador a matar Branca de Neve (ele a abandona na floresta), nem consegue manter para sempre a atenção do espelho, que tudo sabe e nunca mente. Não há espaço para duas mulheres desejáveis na família, uma deverá sair. Quem são os anões? Criaturas pré-púberes (pré-edípicas), com o tamanho de crianças e barbas de velhos, ambos excluídos do jogo sexual, não representando perigo algum à inocência de Branca de Neve, companheiros de infância, advertem-na dos perigos da bruxa, sem sucesso, pois suas visitas (da Bruxa) despertam elementos sexuais reprimidos, representados pela maçã envenenada. A incapacidade de Branca de Neve em resistir à tentação a torna mais humana, seu desmaio simboliza o esmagamento ante desejos conflitantes, e seu sono letárgico, uma morte simbólica, um rito de passagem, do qual ela desperta, de indefesa, para uma nova existência, poderosa.

...e todos vivem felizes para sempre? Nada disso, a seu tempo a tragédia se abaterá sobre Branca de Neve exatamente do mesmo jeito, quando o espelho anunciar mais um destronamento. Mas desse fato as crianças são poupadas. Schopenhauer e seus seguidores, infelizmente não.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Psicologia da Religião: A Teoria do Mundo Justo


O estudo psicológico das religiões nos leva a pensar sobre esta teoria, presente atualmente em muitas das religiões em moda no ocidente. Ela afirma que existe um Deus, que é não apenas sábio e poderoso, mas também bom e justo. Esse Deus zelaria pela ordem no universo e teria interesse direto no bem-estar dos homens. Acreditar nisso, leva a consequências na percepção de como o mundo funciona. O mundo é sentido como menos hostil, baixa a expectativa de aleatoriedade e do acaso na determinação dos acontecimentos e na distribuição de alegrias e desgraças. Isso explica a constatação de que as pessoas religiosas tendem a ser mais conservadoras, menos envolvidas em propostas de mudança social e mais acomodadas diante dos infortúnios. Assim, quanto mais se acredita que Deus tem interesse nos homens, mais o mundo deve ser justo e cada um deve estar recebendo o que merece. Levando esse pensamento adiante, então quem está se dando mal na vida, deve ter feito algo para merecê-lo. Não acreditar nisso cria uma contradição, uma incongruência que precisaria ser resolvida para quem valoriza a lógica do mundo justo. Culpa-se a vítima, negando a legitimidade de seu sofrimento, a fim de proteger a fé que se professa. Ou seja, o que parece injustiça, na verdade seria consequência do pecado, caso contrário, Deus não seria bom, o que, para o religioso é impensável. Pensar nos fatos até sua consequência final pode fazer com que aqueles que acreditam na teoria do “mundo justo”, sejam mais "malvados".
Conforme nos ensina Piaget, é da natureza das crianças achar que o mundo tem formas de organização, o que permite o aprendizado e a educação. A religião, seria uma forma de pensamento que parasitaria essa predisposição mental, que é um fenômeno biológico inato do cérebro humano, conforme nos explica Renato Zamora Flores, Prof. Adjunto da UFRGS, autoridade no assunto. Ele nos mostra como o otimismo religioso do mundo justo está associado a maiores níveis de fertilidade, ou seja, pessoas religiosas tendem a ter mais filhos, o que, nos leva a um aumento na proporção de pessoas religiosas na população, no melhor estilo darwinista.
Parece mentira, mas não é: fundamentalistas religiosos acreditam que quem ganha na loteria fez mais por merecer que quem não ganhou... Continue apostando nessa ideia para ver onde acaba.

Depois faço a loteca com a patroa,
Quem sabe, nosso dia vai chegar...
E rio, porque rico ri à toa,
Também não custa nada imaginar...
(Vinícius de Moraes)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ironia


Parece que Pitágoras (séc.VI a.C.) teria sido o primeiro a usar o termo filosofia (philos-sophia), que significa “amor ao conhecimento”. Como o próprio nome já indica, o filósofo não se considera um “sábio” (sophos), mas alguém que procura (philos: que gosta, que tem afinidade) a sabedoria, o conhecimento. Mais do que um saber, a filosofia é uma atitude diante da vida, tanto no dia-a-dia, quanto nas situações-limite, que pressupõe constante disponibilidade para a indagação. Por isso, Platão e Aristóteles afirmaram que a principal característica do filósofo é admirar-se, ser capaz de se surpreender com o óbvio e questionar as verdades estabelecidas. Essa é a condição para problematizar, o que caracteriza a filosofia não como posse da verdade, mas sim como sua busca sem fim. Algo parecido, como me indicou minha amiga Luiza Pastor, muito apropriadamente, com a postura do bom artista, que o ranzinza aqui criticou.
Do termo eironeia, “ação de perguntar, fingindo ignorar”, veio “ironia”. No sentido atual, usamos a ironia para dizer algo expressando exatamente seu contrário. Por exemplo, afirmo que algo é bonito, na verdade insinuando que é feio. De maneira similar, para Sócrates (470-399 a.C.), a ironia consiste em perguntar, simulando não saber e, assim, provocar a reflexão e o questionamento, sobre o que antes parecia estabelecido. É uma maneira de se fazer sentir a fragilidade do que julgamos conhecido. O interessante dessa postura é que nem sempre as discussões chegam a uma conclusão efetiva, mas traz o benefício do abandono das certezas, que julgamos ter sobre os fatos. Assim como, ao estudar um assunto, paradoxalmente, o que vai aumentando é nossa sensação de ignorância, e não de conhecimento. Uma resposta só traz mais (e mais difíceis) perguntas. Sócrates vagava por Atenas interpelando os transeuntes, perguntando coisas que pareciam óbvias, como “o que é a beleza?”, “o que é a justiça?”, incentivando o diálogo e o pensamento.
Como psiquiatra, costumo dizer que as certezas me preocupam, não as dúvidas. Exemplo: um doente tem a convicção de ser Napoleão. Enquanto ele tiver uma certeza fixa disso, está numa situação muito doentia. Quando ele começar a aceitar apenas a leve possibilidade de que possa estar errado (a dúvida), temos o início da melhora. Essa convicção é um delírio, uma crença falsa, inquestionável, imune à argumentação. A dúvida, para mim, é um indicativo de saúde.
Concluindo, a filosofia é a procura, não a posse, da verdade. A ironia, um instrumento nessa busca.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Provas da existência Deus: 05- Beethoven



Sonata para piano, opus 27, nº2, "Ao Luar".
(ouvir de olhos fechados e sem pressa, ou não ouvir)


1801: em algum lugar da Áustria, por algum motivo que nunca saberemos, Beethoven sentiu algo. Consigo imaginá-lo fechando os olhos, ao mesmo tempo em que transmite esse sentimento a um papel, através de uma partitura. Duzentos anos depois, eu fecho os meus olhos e, através de sua música consigo “sentir” o mesmo que ele.
Que estranha magia é esse negócio de música. Não tem materialidade, não posso tocá-la nem vê-la, e no entanto, ela possui essa capacidade de me emocionar. Onde fica guardado esse sentimento? Está na partitura, na mente do autor, no arquivo de MP3? Quando desligar o som, para onde irá? Não seria o meu corpo, como uma vitrola, que durante um breve tempo produz uma música? E quando eu morrer, será que essa música desaparecerá? Ou continuará tocando de vez em quando, sendo ouvida e influenciando os sentimentos das pessoas a quem eu amei?

Aquele que tiver ouvidos para entender, entenda.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cérebro, Comportamento e Emoções


Começa nesta semana, o esperado congresso. Entre os diversos temas em debate, destaco as discussões a respeito da relação entre a evolução, seleção natural, desenvolvimento da inteligência, relações sociais, pensamento lógico (científico) e persistência residual do pensamento mágico (religioso). Um processo iniciado com o surgimento de tradições entre bandos de primatas, que persiste até hoje entre grupos religiosos. Confiram os temas:

Mesa Redonda
Emoção, inteligência e relações sociais: como a evolução determina a forma como vivemos? / Emotion, intelligence and social bonds: how evolution crafts the way we live?
Coordenador: João Luciano de Quevedo (Brasil/SC)
Seleção natural e a evolução das emoções / The evolution of human emotion
Apresentadora: IVANA BEATRICE MANICA DA CRUZ (Brasil/RS)
A inteligência moldando e sendo moldada pela evolução / The concept and evolution of general intelligence
Apresentador: JOAQUIN FUSTER (Estados Unidos)
O surgimento de tradições em sociedades de primatas: evolução em tempo real / The emergence of traditions in primates: evolution in the making?
Apresentador: STEPHEN J. SUOMI (Estados Unidos)
Debate
Mesa Redonda
Religião e neurociência: a mente, o cérebro e o ambiente
Coordenador: DIOGO LARA (Brasil/RS)
Por que tantos de nós, desde sempre, acreditamos em um ou muitos Deuses?
Apresentador: RENATO ZAMORA FLORES (Brasil/RS)
The ‘GOD part of the brain’: revisitando as relações entre religião e neurociência
Apresentador: ANDRÉ PALMINI (Brasil/RS)
Debate