sábado, 24 de julho de 2010

Pacientes que não tive 06: São Domingos de Gusmão

Ao lado de São Francisco de Assis, marcou o século XIII com sua santidade vivida na mendicância e no total abandono em Deus e desapego material. Foi o fundador da Ordem dos Irmãos Pregadores Cavaleiros de Cristo (1215), mais conhecida como Dominicanos ("domini canis", ou cães do senhor), responsável pela formação de doutores como São Tomás de Aquino. Nascido na região da atual Espanha em 1170, de família  notória (dois de seus irmãos morreram em odor de santidade), numa época assolada por movimentos hereges. Sua mãe sonhou que ele nasceria com uma tocha na boca, com a qual incendiaria o mundo. Atraído para a virtude desde o berço, diz-se que de pequeno já era prodigiosamente dotado da sabedoria de anciãos. Rodeado de glória, cuidava de doentes nos hospitais. Pobres, órfãos e viúvas não ficavam desamparados em sua presença.
Dedicou-se a reconduzir a Deus as almas extraviadas pelas heresia albigense, dos cátaros. Regava as verdades com afetos piedosos a fim de que germinassem os frutos da salvação. Estremecia ao saber que tantos se perdiam por falta de pregação, sentindo de longe o cheiro dos inimigos da fé. Foi então designado pelo Papa a impulsionar a Santa Inquisição, à qual se dedicou com heróico fervor, culminando na formação da Cruzada (guerra) contra os Albigenses (1209-1229), pelo Papa Inocêncio III. A luta era feroz, mas seus sábios métodos, infalíveis. Perguntado como distinguir os piedosos dos infiéis, em uma cidade albigense, São Domingos, replicou: "Mate-os a todos, Deus saberá quem são".
Falecido em 1221. Canonizado em 1234.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Freud na fogueira

Na noite de 10 de maio de 1933, em Berlim os nazistas queimaram mais de 20.000 publicações, entre livros e revistas, dos mais variados temas, livros de ciências, poesia, literatura, psicologia... Qualquer assunto poderia ser considerado "impróprio" (Freud, por exemplo, por ser um autor judeu e falar de sexo). Foi feita uma pilha de livros que virou uma fogueira. No mesmo local, hoje chamado Bebelplatz, foi construído em 2006 um monumento (foto menor) para que o sinistro episódio fosse sempre lembrado. No subterrâneo da praça foi construída uma biblioteca com estantes vazias, que pode ser vista da praça, através de um piso de vidro. Em uma placa, a frase do poeta Henrich Heine: "Onde se queimam livros, no final também se queimam pessoas". Hitler era vegetariano, muito apegado a seus cães, não fumava e não bebia. Freud era carnívoro, bebia e fumava tanto que desenvolveu câncer na boca, o que veio a matá-lo em 1939, ano do início da II Guerra. Hitler se matou em 1945 ao final dela (seu amado cão também se matou), mas ele não será agraciado com um tópico de suicida ilustre, esse eu deixo passar.

domingo, 18 de julho de 2010

Suicidas ilustres 07: Sócrates (469 a.C.-399 a.C.)

Ele é lembrado não pelo que respondeu, mas pelo que perguntou. Nada deixou de escrito. Dizem que era feio como o cão. Casou com uma mulher insuportável (Xantipa) a fim de poder exercitar a virtude da paciência. Por dizer que nada sabia foi considerado o homem mais sábio da Grécia, pelo Oráculo de Delfos. Particularmente, sinto-me inspirado por sua ironia e seu método de questionamento, que fazia as pessoas pensarem, "parindo" idéias, não ensinando nada a ninguém, sempre colocando em dúvida as certezas alheias. Instituiu o conhecimento como meta da vida humana. Sua postura o envolveu em intrigas políticas, tendo sido condenado então, por não acreditar nos deuses da cidade e por suposta corrupção da juventude, a cometer suicídio. Recusou a alternativa que tinha, de deixar Atenas, preferindo morrer de acordo com suas convicções. Após despedir-se dos três filhos, da mulher e dos amigos, bebeu cicuta, morrendo com dignidade. 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

É pior ir ao psiquiatra do que ter um infarto (sic)

Foi muito bem colocado, por nosso querido "anônimo" o comentário que lembra Vinícius de Moraes, no samba "Como dizia o poeta", primeira composição da parceria com Toquinho, baseado num adágio de Tomasso Albinoni, falecido há mais de dois séculos, que, segundo o poeta, deveria estar muito feliz com o resultado, em sua tumba. Acontece que, caso tenha passado despercebido, no mesmo samba se insere uma poesia ocasional, declamada por Vinícius, na qual ele afirma que ir ao psiquiatra é pior do que sofrer um infarto. A mensagem é linda, a vida deve ser vivida e aproveitada, com paixão e intensidade, pois é passageira (...carpe diem; memento mori) e lá um belo dia, algo põe fim a tudo isso. Confesso que, embora ele esteja coberto de razão quase sempre, não fiquei feliz com a idéia que o poeta tem de minha classe. Pena que não seja mais possível discutir isso com ele durante um porre, pois agora ele está junto de Albinoni!

Para quem quiser ouvir do que se trata (vale a pena), este é o link:
http://www.youtube.com/watch?v=fXNG2SVSIUE&feature=related

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Memento Mori

Máxima romana. Frase sussurrada por um escravo a um general romano, durante um desfile comemorativo a uma vitória militar, para que ele não se sentisse semelhante aos deuses, significando:"lembra-te de que vais morrer". Uma advertência para que não esqueçamos da brevidade da vida. Tornou-se muito popular durante o atormentado período barroco, ocasião em que as pessoas levavam consigo amuletos "memento mori", como fazemos hoje com bijouterias. A diferença é que esta última só faz referência à imitação, ao superficial, ao descartável.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Paixão

Eu nunca me havia dado conta!
Duas palavras tão presentes em meu vocabulário cotidiano, com significados tão distintos uma da outra (será mesmo?), tem a mesma origem etimológica.
Do grego "pathos" que significa "padecer", "sofrer" no sentido de algo que ocorre ao sujeito independente de sua vontade, que o atinge, sem que ele provoque, mas sim sofrendo a ação de uma causa externa; é daí que se originam as palavras "paixão", "patologia" (doença)e "patológico" (doentio).
Acho que a paixão deve ser a única doença deliciosa. Será contagiosa? Será que mata?

sábado, 10 de julho de 2010

Pacientes que não tive 05: John Lennon

Um homem que fez tudo a seu modo. Viveu em intensidade. Os Beatles foram pouco. Largou tudo para ficar ao lado da mulher que amava, sob protestos inconformados da multidão. Melodia e poesia merecem atenção. Na música "God" (Deus), expressa sua descrença de maneira elegante, a tensão melódica vai crescendo enquanto enumera as coisas e entidades nas quais não crê, para encontrar alívio na conclusão, ao afirmar que só acredita em si, e em Yoko, que são reais, e que "o sonho acabou", mas teremos de continuar assim mesmo. Mesmo sem ilusões.

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Campanha de prevenção ao suicídio

A partir desta semana, a Rede Globo de Televisão começa a veicular em sua grade de programação um vídeo sobre prevenção do suicídio produzido pela Associação Brasileira de Psiquiatria.
A produção informa, entre outros dados, que a cada dia 24 pessoas morrem por suicídio no Brasil. Por meio de números como este, o vídeo destaca a importância do tratamento às pessoas com doença mental e faz parte da campanha “Comportamento Suicida: Conhecer para Prevenir”.
Assim a Associação Brasileira de Psiquiatria concretiza uma das suas principais missões: atuar junto à sociedade no objetivo de esclarecer a população sobre a alta incidência dos transtornos mentais e a respeito da importância de procurar ajuda médica.
O material é uma importante ferramenta na luta contra o estigma da área psiquiátrica e está disponível no site da ABP Comunidade. Para assistir ao vídeo pela internet, acesse:

http://www.abpcomunidade.org.br/campanhas/

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pensamento

"A ciência não torna impossível acreditar em deus. Simplesmente torna possível não acreditar em deus."

(de Steven Weinberg, físico estadunidense, prêmio Nobel de Física em 1979, membro da Royal Society of London e da U.S. National Academy of Science).

Suicidas ilustres 06: Reverendo Jim Jones

Nascido em 1931, o líder religioso James Warren Jim Jones sentiu precocemente uma forte inclinação religiosa. Nas décadas de 50 e 60, foi intensificando sua reputação carismática, angariando cada vez mais seguidores. Fundou a Igreja "Templo do Povo", local no qual fazia suas pregações, curava doentes e cobrava dízimos. Foi alvo de intensas perseguições por parte da imprensa, mudando-se então para a Guiana onde fundou a comunidade "Jonestown", de inspiração socialista e auto-suficiente, achando que lá pregaria sua doutrina em paz. Ledo engano, pois continuou alvo de investigações extra-oficiais levadas a cabo por parentes inconformados de fiéis convictos. Não foi nem será a única vez que pessoas são perseguidas por sua fé. Mas o desfecho foi trágico. Segundo o relato de três sobreviventes que fugiram, Jones determinou que todos bebessem um refresco com veneno, no que foi obedecido com serenidade. Mães deram veneno aos filhos e o tomaram em seguida, espontânea e passivamente, o que muitos consideram inexplicável. No total foram 913 mortos, dos quais 276 eram crianças. Por último, após o suicídio coletivo, o Reverendo disparou um tiro contra sua cabeça.
Era 18 de novembro, 1978.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Pacientes que não tive 04: Genghis Khan

Nascido em 1162, na Mongólia, ficou órfão de pai aos 9 anos. Ainda na infância, matou a flechadas um homem que se dispunha a casar com sua mãe. Organizou um grupo armado que só fez crescer até se transformar em um exército que não conheceu derrotas. Neutralizou o poder de parentes, matou todos os chefes (Khans) de clãs rivais. Consolidou o maior império contínuo de toda a história, da Coréia à Hungria; em extensão ou população, mais do que o dobro que qualquer outro. Os mongóis aterrorizavam os vencidos, assassinando os homens e estuprando as mulheres. A reputação de sua violência atravessou os séculos. Na Europa, séc.XIX, o nascimento de crianças com síndrome de Down era interpretado como um sinal do estupro de alguma ancestral por um guerreiro mongol, daí o termo "mongolismo". Tantos foram os descendentes destas práticas e dos incontáveis haréns dele que estudos genéticos recentes indicam que os descendentes de Gengis Khan somam nada menos do que 34,8% da população da atual mongólia, 8% dos homens asiáticos e 0,5% da população mundial. Seu último descendente direto no goveerno foi Alim Kham, emir no Uzbequistão, deposto em 1920 pela revolução soviética.
Deixando de lado os aspectos éticos e morais da questão, essa estratégia de massacre e estupro se mostrou darwinianamente imbatível, seus genes continuam imperando.
Fontes:
Zerjal, T., et al. (17 de janeiro de 2003). The Genetic Legacy of the Mongols
Derenko M.V., et al. (março de 2007). Distribution of the male lineages of Genghis Khan's descendants in northern Eurasian populations.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ciência, religião e criacionismo

Nem sempre a luz acaba com as trevas.
Muitas pessoas acreditam que o mundo foi criado há cerca de 4 mil anos, que a evolução das espécies, conforme inicialmente proposto por Darwin em 1859, não passa de uma "teoria" (fantasiosa), e que é perda de tempo discutir a respeito, pois a verdade já foi estabelecida por seus profetas, sejam eles santos, pastores ou divindades. Mais grave do que ignorância, ou seja, desconhecimento, desinformação, falta de instrução; estas posturas, a meu ver, se aproximam mais da doença mental, da patologia do pensamento, da psicopatologia.
A psiquiatria tem estudado esta questão. Para quem se interessar, ofereço o link para uma matéria a respeito publicada na Revista de Psiquiatria Clínica (Numbers RL / Rev Psiq Clín. 2009;36(6):246-51):

http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol36/n6/250.htm
(Este artigo é baseado numa conferência proferida em 11 de maio de 2006 no Howard Building do Downing College na Universidade de Cambridge, Reino Unido).