sábado, 14 de dezembro de 2013

Casais Felizes


O amor é frágil, sobrevive muito mal à realidade. A felicidade é uma foto sobre uma mesa, em um mundo que adora mentir sobre si mesmo. Olhando a foto do casal feliz acima, percebo como é banal nossa revolta contra a evidente ausência de sentido da vida. Todos nesse momento atiram pedras em Elize Matsunaga, como a reforçar como são diferentes dela. Existe um pacote de mentiras básicas propagadas pelas pessoas que querem ser consideradas felizes por seus próximos. Mais uma forma de intoxicação nas próprias mentiras, desses hipócritas do bem. Quase tudo é farsa na pretensa vida superbem resolvida de gente superlegal, alto-astral, que não trai o cônjuge, que ama as plantas, que protege o planeta das sacolinhas plásticas. Aqueles que trazem no rosto o sorriso idiota da capa dos livros de auto-ajuda, essa praga que ensina as pessoas a serem mais burras do que já são, exalam um fedor que sinto de longe.
Não temos como escapar da maldição da infelicidade, pois, da mesma forma que a dor, ela está programada em nossos genes. Os homens traem muito suas mulheres, isso é uma verdade desagradável, que os escravos da mania de felicidade não gostam de admitir. Existem prostíbulos de luxo em São Paulo, repletos de executivos, cujas esposas estão na academia, ambos traindo um ao outro. Claro que também existem aqueles que são fiéis às esposas, mesmo que isso implique em sua própria infelicidade. Vivem num faz de conta supremo, onde a mentira bonita é preferível ante a nauseabunda condição humana. Pois os seres humanos vivem uma realidade terrível, com medo constante do fracasso, da doença, da mediocridade. Somos vítimas de nossas incontroláveis paixões, de nossa finitude e efemeridade. Seres esquecidos e abandonados à própria sorte, somos como barcos à deriva, navegando sem rumo por um oceano desconhecido, de instintos e impulsos, que fatalmente terminará no envelhecimento, no adoecimento e na morte. Sem opções. Viva tranquilo com isso.
Um limite muito tênue e artificial nos separa desse casal infeliz. Por puro acaso essa mulher foi presa, enquanto outra tão ou mais vagabunda que ela, com um marido tão ou mais imbecil que ele, continuam aprontando por aí. Há mais assassinos soltos do que presos, nesse mundo sem justiça. Esse pobre japonês não tinha capacidade para conquistar e seduzir mulheres com seu charme (o coitado era muito feio), mas como muitos japoneses que eu conheço, se achava irresistível. Suas gorjetas de R$ 27 mil deviam ser mesmo irresistíveis para meninas pobres e gostosinhas. Me dá é pena da putinha que teve o azar de ver morrer a galinha dos ovos de ouro. Não podia acabar bem. Nunca vai acabar bem. Esteja preparado, quando sua vez chegar, e não for mais possível fugir da miséria da existência, aí você entenderá melhor, o que significa ser o habitante de um mundo sem sentido.

Facebook, o mural da miséria humana.



Um grande professor que tenho, dizia que a miséria humana vem à tona nas delegacias e nos consultórios de psiquiatria. Assombrados como vivemos hoje em dia pela falsa necessidade de permanente conexão à rede; essa mesma miséria humana, antes escondida, está superexposta nos maiores murais da infelicidade humana que já tive o desprazer de conhecer: as famigeradas redes sociais, em particular, o Facebbok, o melhor local para estudar o comportamento do Abominável Homem Conectado.
Humanos que somos, nos sabendo fracos, egoístas e covardes, criamos mitos de deuses incondicionalmente bons, amorosos, tremendamente poderosos (e paradoxalmente humildes). Nestes deuses, os desesperados, quando pouco inteligentes, se apegam, buscando pela salvação, que não virá nunca. Enquanto esperam, demonstram a angústia banal de sua carência afetiva, neste infeliz painel da internet (o Facebook), geralmente de maneira monótona, superficial e pouco criativa, projetando seus pobres sonhos, seus desejos infantis, suas frustrações, na forma de falso otimismo, destemor e segurança. Pelo que escrevem, até poderia parecer que as pessoas se amam,que são boas e ajudam umas às outras. Que acreditam em Deus, que seguem seus mandamentos, e por isso são respeitáveis.
Desconfio muito de gente que fala bem de si mesma e do mundo hostil em que vivemos. Isso explica a repulsa por mensagens pretensamente otimistas.  Fotos de paisagens bonitas, animais felizes em harmonia com árvores frondosas, debaixo de um Sol de brilho quase sorridente, emocionam idiotas românticos aos montes, e ilustram muito bem o desejo de transformar um mundo interno sombrio naquele falso paraíso que vemos nos desenhos de Bíblias para crianças, onde o Leão não é feroz, mas mansamente sorridente, e olha para o veadinho ao seu lado sem a intenção de matá-lo e simplesmente comê-lo, seu real (e negado desejo). A beleza dócil das boas intenções que proliferam no facebook encontra sua contrapartida na solidão de quem nele perde seu tempo.
 

Psicologia da Religião (2): o Apocalipse

 

Quando o livro (bíblico) do Apocalipse foi escrito, apenas Deus tinha o poder de acabar com o mundo. Isso mudou. Antes que o homem aprendesse a ser racional ou pacífico, antes de perder o desejo de matar, ele criou armas nucleares, e a capacidade de acabar com todos os outros homens. Num mundo potencialmente tão perigoso, não é mais admissível que decisões importantes sejam delegadas a pessoas irracionais e religiosas. Nações são como naves gigantescas, viajantes no tempo, e deveriam ser guiadas com bússolas e bom-senso, não por livros de receitas de cozinha, escritos na noite dos tempos, na Idade das pedras, quando parecem ter tido alguma utilidade. Outros livros foram escritos depois, mais adequados aos novos tempos, que vieram após o Paleolítico. Porque eu acho as religiões perigosas? Porque elas permitem aos homens acharem que tem respostas sobre questões importantes, quando na verdade eles não tem. Quando alguém disser, com aquela expressão esbugalhada do crente, aquele sorriso deslumbrado, estúpido e fixo, que sabe o que vai lhe acontecer após a morte, não acredite. Ele não sabe. Ninguém sabe. Simplesmente porque ele não tem poderes mentais superiores aos outros, para ter acesso a verdades “ocultas”. A única atitude apropriada para o homem diante das grandes questões da vida é a dúvida e a incerteza, uma postura de humildade. Exatamente o oposto das certezas arrogantes, marcas registradas das religiões, de seus dogmas. Ter fé é a atitude absurda de tornar o não pensar em uma virtude. Aqueles que pregam a fé, são escravizadores intelectuais, suas doutrinas não vieram dos céus, mas de dentro deles mesmos, humanos que são, com todas as limitações, corrupções, mentiras e motivações pessoais secretas, que, como todos nós, eles também tem.
As religiões justificam a loucura e a destruição. Até na Medicina, o manual americano de diagnóstico e estatística de transtornos mentais (o DSM), avisa com cautela que, se sintomas de loucura, como delírios e alucinações, ocorrerem dentro do “contexto religioso”, o diagnóstico de doença mental não deverá ser feito. Ou seja, se aos domingos você acredita beber o sangue de uma figura mítica, nascida de uma mãe virgem há dois mil anos, que realizava milagres (como ressuscitar mortos); ou então se acreditar em cobras traiçoeiras falantes; sossegue, você não está louco.
“Adquirir armas nucleares em defesa dos muçulmanos, é um dever religioso” (Osama Bin Laden)
“A política externa dos EUA, é resultado da vontade de Deus”(George W.Bush)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Parto em Casa


Meu corpo, minhas escolhas. Será mesmo? Recentemente sofri de uma pneumonia. Não me mediquei, apesar de ser médico, pois sei que outros colegas entendem melhor sobre antibióticos do que eu. Poderia ter me medicado? Poderia. Se um biólogo ou um historiador sofrerem do mesmo mal, podem se medicar? Se forem idiotas o suficiente, podem. Se for um imbecil total, pode se tratar com homeopatia, ou remédios “naturais”. Tem gente que é contra o uso de antibióticos, por ideologia. Dentro de certos limites, as pessoas fazem uso de seus corpos, de acordo com suas escolhas. Tem gente que toma sol sem protetor solar. Tem quem fuma, quem bebe, quem ama maconha. Tem gente que se atira de pára-quedas, de asa-delta, que faz mergulhos radicais. Tem aqueles que adoram sexo sem camisinha com estranhos.
Com relação aos partos, também assistimos a modismos bizarros. Houve a moda do parto de cócoras, “natural como o das índias”. O parto embaixo da água. Parto com música clássica. Quando a anestesia começou a surgir, no séc.XIX, os médicos tinham medo de usá-la no parto, pois na bíblia estava escrito que a mulher deveria “dar à luz em dor”, conforme se lê no Gênesis, por ter comido a maçã. Parto com anestesia, sem dor, ia frontalmente contra as ordens de Deus. Eu acredito que cada louco tem o direito de fazer a maluquice que lhe couber, pena que, nesse caso, quem sofreria as consequências de uma indesejada complicação, seria o inocente, que não tem culpa por ter uma mãe idiota.  
Acho válido: meu corpo, minha idiotice, minhas escolhas

Drive-Thru de Oração

 
A vida é cheia de mistérios, e é difícil conviver com as diferenças. Afinal o que importa, no fundo, é chegar a Deus, sentir sua presença em nossa vida cotidiana. Mas a vida no mundo moderno é uma correria. Pensando nisso, a Igreja Universal do reino de Deus lançou o “Drive thru da oração”. Com ele, o motorista não precisa nem descer do carro para ser abençoado, e seguir viagem tranqüilo, em segurança.
Com o lema: “pare, ore e siga”, mais uma vez, os mistérios de Deus se anunciam aos homens.O que importa é que somos todos irmãos, filhos do Deus vivo, humildes estudantes sem fim da Palavra, lendo Kardec, felizes por sermos católicos ou pagando dízimos, somos partícipes do mesmo mistério. Pena que algumas pessoas ainda brinquem com isso. São vidas empobrecidas.
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Pomo da Discórdia (às vezes convém ficar quieto)




Para a festa do casamento de Peleu e da ninfa Tétis, futuros pais de Aquiles, os deuses do Olimpo, preferiram não convidar Éris, a deusa da discórdia. Ninguém queria vê-la em dia de festa, pois onde ela aparecia, as brigas e desentendimentos suplantavam a harmonia. Mas, como não podia deixar de acontecer, Eris aparece justamente onde não foi chamada, furiosa. Para se vingar, joga na mesa dos deuses um pomo de ouro com a inscrição: “Para a mais bela”. Como era de se esperar, as três deusas mais próximas, se consideraram merecedoras, e o conflito lentamente se insinua até terminar em tragédia. Zeus, experiente chefe de família, chamado para decidir a questão, gentilmente recusa a tarefa, evitando tomar qualquer partido na briga. A decisão recai sobre Páris, príncipe de Tróia, que com a ingenuidade da juventude, aceita o papel de juiz.
As três deusas se apresentam a Páris, e cada uma delas, para receber a indicação de “a mais bela”, e então poder levar o pomo de ouro, a fim de ganhar seu voto, promete a ele aquilo que ela própria representa. Hera, esposa de Zeus, que reina sobre os deuses, promete que, se for a escolhida, Páris receberá um reino sem igual na terra. Atena, deusa da inteligência, das artes e da guerra, lhe garante, sendo eleita, sabedoria e glória. Já Afrodite, deusa do amor, lhe garante a sedução da mais bela dentre todas as mortais.
Páris dá o pomo a Afrodite. Para a grande infelicidade de todos, a mais bela mortal é Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta. Com ajuda de Afrodite, então Páris seduz e rapta Helena, dando início à maior guerra de todos os tempos: a Guerra de Tóia. Eris conseguiu seu objetivo. Não é por acaso que o nome da deusa da discórdia é tão parecido com o nome do deus do amor: Éris e Éros. É porque passamos de um ao outro com imensa facilidade, a ponto de se dizer que são faces opostas do mesmo fenômeno. Amor e discórdia.
Fez bem Zeus ao ficar de boca fechada.

Fantasmas Existem



O processo de luto é um exemplo do que chamamos de elaboração psíquica, algo parecido com uma digestão da realidade. Não basta registrar um conhecimento, é preciso colocá-lo nos lugares certos: consciência e memória. É preciso aceitar as circunstâncias da vida, sejam felizes ou dolorosas. Devemos matar os nossos mortos, para que tenham paz e nos deixem viver tranqüilos. Ao negar a morte, construímos um fantasma, que perambula em nossa volta. Se alguém nos tiraniza depois da morte, é provável que nos fizesse o mesmo em vida, e se nega a desaparecer. O luto não acaba, a relação e o sofrimento persistem. Aqueles que nos amam de verdade, participam de nossa felicidade, não precisam de uma pseudo-vida eterna. Morrem e nos deixam viver.
Nas pessoas com dificuldade em aceitar a morte, o processo de luto não se conclui, acontecendo que se perpetuem a dor e o sofrimento. Tristeza, desesperança, morbidez. Tornam-se um peso “morto” para os amigos.
Nunca fui assombrado. Mas acredito em quem diz ver fantasmas.

Sexo: o inventor do envelhecimento



Fruto da união de seus pais, um bebê nasce. Se tudo correr bem, ele se tornará uma criança, depois um adulto. Sobrevivendo às intempéries, poderá ter os seus próprios filhos, envelhecer e, por fim morrer. Neste processo, sem que ele saiba o porquê, às vezes sentirá vontade de beber água, às vezes de se alimentar. Sentirá atrações irresistíveis pelo sexo oposto, desejo de aconchego, raiva, alegria, tristeza, sono e outras coisas. Seu corpo e psiquismo vão mudar independentemente de sua compreensão, e muitas vezes contra sua vontade. A partir de certo momento, seu vigor entrará em declínio progressivo e a morte será o desfecho inevitável. Não adiantaria em nada cercá-lo de todo o conforto, alimentação saudável, medicina de primeira. Ele vai morrer, não importa o que se faça. A morte é um evento previsto e programado em seu genoma.
Bactérias e protozoários podem se reproduzir de maneira assexuada, simplesmente se duplicando por mitose. Uma célula vai crescendo lentamente até ficar grande, e se divide em duas menores. A célula “mãe” deixa de existir, sem morrer, sem deixar um “cadáver”. Ao contrário, produz dois “filhos” genéticamente idênticos a ela. Na verdade, não há mãe ou filho, são mais como irmãos gêmeos. Se conseguirem alimento, abrigo e não forem devorados, como nós, poderão continuar se reproduzindo, mas com uma diferença muito interessante: não “envelhecerão”. Poderão morrer, caso sejam devoradas, queimadas, ressecadas. Mas, se forem deixadas em paz e com alimento, prosperarão sem limites. O universo bacteriano desconhece a morte “natural”, por envelhecimento Existe algo de imortalidade na vida das bactérias.
Ao clonarem mamíferos, os cientistas se depararam com o inusitado fato do envelhecimento precoce dos clones. Isso é coerente com a programação genética que carregamos para definhar, passado o período necessário à reprodução. Essa programação passou a existir com o advento da reprodução sexual. Ao que tudo indica, durante os primeiros 2,5 bilhões de anos, a vida na terra se manteve exclusivamente em formas unicelulares simples, muito semelhantes às bactérias atuais. A evolução para formas multicelulares, como nós, incluiu duas novidades: o sexo e a morte programada.

Se você gosta de sexo, nunca se esqueça disso. É por causa dele que vamos morrer.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A cura pela palavra: Buda

 
Os antigos classificavam os médicos como os que curavam com “a faca”, as ervas ou as palavras. Cirurgiões, clínicos e psiquiatras. Perguntam-me como pode, através da psicoterapia, a palavra curar. Vou ilustrar com exemplos.

Kisagohtami não se conformava com a morte de seu bebê. Como louca, perambulava pelos vilarejos carregando o cadáver de seu filho, acalentando-o como se estivesse vivo, procurando a “cura” para seu filho “doente”. Quando alguém dizia que ele estava morto, causava sua fúria, e ela ficava violenta. Assim, todos se afastavam dela e ninguém sabia o que fazer para ajudar a pobre delirante. Ela foi então levada a um iluminado, Buda. Este a recebeu, e com delicadeza, sem confrontá-la com o absurdo de seu pedido, disse calmamente que sabia como ajudá-la. Disse que para curar seu filho, precisaria de sementes de papoula. Pediu a ela que fosse até a cidade buscá-las, mas advertiu que as sementes deveriam vir apenas de casas de famílias que nunca tivessem sido tocadas pela morte. Kisagohtami foi à cidade, encontrou muitas casas, todas com papoulas, mas nenhuma nas condições pedidas por Buda. A morte atingia todas as casas. Retornou a ele e, diante de sua calma presença percebeu o significado secreto de suas palavras. Não é possível fugir da morte. Como despertando de um pesadelo, sua mente se recuperou, e ela pode então prantear a morte de seu filho e sepultá-lo.
Apenas com o poder da palavra, sem confrontação, sem imposição, ele conduziu gentilmente seu pensamento para fora do delírio, possibilitando a descoberta e aceitação do inevitável, não eliminando seu sofrimento, mas lidando com ele de maneira mais adequada. Recebeu a angústia da mulher, aceitou-a com empatia, e com uma abordagem não crítica nem onipotente, expandiu sua percepção da realidade. Para isso, não fez uso de remédios, orações ou danças. Sem precisar fazer uso de nada sobrenatural, levou a luz para onde havia trevas. Clareou o que estava no escuro. Esclareceu.

Dona Flor e seus dois maridos



Vadinho, o primeiro marido de Flor, lhe apresentou as delícias e dores do amor. Encantador para as mulheres, quase irresistível. Era charmoso, sensual, atrevido, sedutor e inconsequente. Mas também mulherengo e irresponsável. Com ele tudo era intenso. Bebia, jogava, tinha amantes.Não trabalhava, vivia na farra. Todos adoravam sua companhia. Não ligava para o futuro, só queria viver o aqui e agora.
Teodoro, o 2º marido de Flor, era o oposto. Honrado farmacêutico, homem trabalhador, culto e educado. Oferecia todas as seguranças que uma mulher pode querer, respeitabilidade social e fidelidade acima de qualquer suspeita. Mas não tinha graça nem encantava ninguém. Não perturbava os sonos de Flor, não despertava seus desejos. Era um chato.
Freud, em sua teoria estrutural da mente, descreveu o que chamou de Id, um reservatório inconsciente de energia e de pulsões, sempre ativas, regido pelo princípio do prazer, exigindo satisfação imediata desses impulsos, sem levar em conta a possibilidade de conseqüências indesejáveis. Jorge Amado o chamou de Vadinho.Freud chamou de superego o censor, um juiz rigoroso, vigia cruel e incansável, modelo de conduta, contendo os ideais derivados de valores familiares e sociais. Fonte de sentimentos de culpa e medo de punição. Corresponde, no romance a Teodoro.
Dona Flor sofria para conciliar os opostos. Protegia Vadinho, a quem desejava; de Teodoro, a quem respeitava. Precisava do calor de um e da segurança do outro. Ela corresponde ao Ego, funciona do em nível mais consciente, regido pelo princípio da realidade, procurando se equilibrar entre os outros dois, permitindo a realização parcial de desejos do id (Vadinho), mas sempre sob a rígida vigilância dos limites impostos pelo superego (Teodoro), num conflito permanente entre forças opostas, tentando conciliar o conflito. Ela personifica o drama constante de todos nós: o equilíbrio entre a realização dos desejos, conseguindo o máximo de prazer, com o mínimo de prejuízos.

O Silêncio de Cordélia



Goneril e Regane proclamam seu amor pelo rei, relatam sacrifícios que por ele fizeram, exibindo sua dedicação, pleiteando maior atenção paterna. Frente ao pedido do pai por provas de seu afeto,e diante de suas irmãs, Cordélia, a terceira filha do Rei Lear, pensa consigo mesma: “Cordélia, o que farás? Ama e te cala... por que seu amor é mais rico que sua língua”.A honrada Cordélia recusa a envolver-se na discussão hipócrita, com vistas ao lucro ante as riquezas do pai, sendo então excluída por ele de toda e qualquer parte de sua herança. O rei diz: “Nada virá de nada” (William Shakespeare,Rei Lear, ato1, cena1).
O erro trágico de Lear, que levará à cegueira, à loucura e, por final, à morte, está em não reconhecer que o silêncio pode incorporar em si os mais profundos e importantes significados. Tive o prazer e a honra de assistir ao inigualável Raul Cortez no papel de Rei Lear. E todo dia me deparo com situações que refletem essa mesma realidade. Aquilo que não é dito pelos pacientes, ou esquecido, ou desviado, muitas vezes tem mais importância do que aquilo que é repetido, às vezes até a exaustão. Da mesma forma como na vida nos deparamos com pessoas que dizem fazer e seus opostos, aqueles que fazem em silêncio. As palavras nos enganam mais do que os fatos, e o silêncio pode ser muito valioso.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O que querem os homens?



A prostituição feminina no Japão antigo era altamente sofisticada. Esposas eram restritas aos cuidados com o lar e filhos. As cortesãs (prostitutas) é que eram procuradas pelos homens para o sexo e envolvimento amoroso. Recebiam uma educação sofisticada, que costumava se iniciar muito cedo, quando ainda crianças. Aprendiam literatura, música, artes, história, etiqueta, etc... "Mulheres para brincar" eram classificadas e recebiam licença legal para trabalhar em "casas de prazer", com preços muito variáveis, muitas vezes negociados pelas próprias esposas dos clientes, que não raro, as escolhiam. A fala abaixo foi extraída do romance "Gai-Jin" (estrangeiro, em japonês), de James Clavell, e ilustra como uma cortesã era instruída por sua superiora, no Japão do século XIX:
"É esse meu dever, treiná-la, mantê-la gentil e generosa, disposta a se sacrificar pelo prazer do homem... não por seu impulso. É isso o que mantém os homens felizes e contentes, o prazer, em todas as suas manifestações. Aprender é a parte mais importante de nosso trabalho. É fácil satisfazer o corpo de um homem... um prazer transitório... mas é difícil agradá-lo por um prazo mais prolongado, envolvê-lo, conservar seu favor. Isto deve vir através dos sentidos da mente. Para consegui-lo, é preciso treinar com extremo cuidado. Não é sexo que os homens realmente procuram em nosso mundo, mas romance... nosso fruto mais proibido."

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O fracasso nos torna humanos


O fracasso é necessário. Qualquer professor de jardim da infância sabe disso. O fracasso prepara o indivíduo a lidar com frustrações. E a vida, é um acúmulo progressivo de frustrações, que se sucedem e amplificam. No fim, todos fracassaremos. Todos. Pode reclamar e gritar à vontade, que não vai adiantar nada.
O sucesso é traiçoeiro. Uma pessoa de sucesso, se sente bem-recebida onde quer que vá, portas lhe são abertas, tapetes estendidos. Cercada de olhares de admiração e inveja, sua opinião é ouvida e respeitada. Tem acesso a vantagens e realização de prazeres, inatingíveis aos menos favorecidos, os comuns. O perigo é que ninguém faz sucesso o tempo todo. Ele já vem com os dias contados.E quanto mais alto se estiver, maior a queda. A mulher gostosa vai envelhecer; inconformada vai perceber que está se tornando "invisível" ao olhar masculino, quando antes, era o centro das atenções. O empresário brilhante será ultrapassado. O reinado do leão é passageiro, ele será destronado por um rival mais jovem, como todos que vieram antes dele, e os que virão depois. É biológico, não tenho culpa. Se quiser culpar alguém, culpe a Deus por ter feito desse jeito, não a mim, por denunciá-lo. Ele é sim, um sacana, uma vez que podia ter feito diferente.
Prefiro o fracasso. Ele está mais próximo da condição humana, que é precária, incerta, assustadora, amedrontada, insegura. Afinal, o homem é um cérebro pensante, sendo carregado de um lado a outro por quem? Por um mero tubo digestivo! (aquele mesmo, que solta flatos e defeca). O cérebro é uma alma, capaz de realizações divinas; ele pensa, vê, opina, se emociona, é capaz de construir obras magníficas, prédios gigantescos... poesia, filosofia, arte! Consegue ir à Lua! Mas o corpo... o tubo digestivo que o carrega, e do qual ele depende... tem algo de apodrecido, impuro em seu interior, e está fatalmente condenado à decadência, à falência fisiológica, à inevitável ruína do envelhecimento, da doença e da morte. O ser humano tem uma alma divina, sempre se aprimorando, melhorando... conduzida por um corpo que apodrece e se desfaz, enquanto a divindade assiste, impotente. Esse é o paradoxo. Não importa o que você faça, a derrota final está sempre te esperando. E durante a embriaguez do sucesso, você não entra em contato com essa desagradável realidade. Deus, o sacana, pelo menos te ajude em sua queda. Assim espero.
Meus pacientes estão livres da obrigação de fazer sucesso. E perdoados por fracassar.

sábado, 3 de agosto de 2013

O Umbigo de Adão


O Arcebispo James Ussher, profundo estudioso da Bíblia, concluiu que Deus criou o mundo às 16:00 horas do dia 24 de outubro de 2004, antes de Cristo. Portanto, segundo as sagradas escrituras, a terra existe a cerca de 4 mil anos.
Conforme se lê no Livro de Josué (10:12-14): "O Sol parou no meio do céu e não apressou a pôr-se por quase um dia inteiro, até que o povo massacrasse seus inimigos, porque, piedoso, o Senhor combatia por Israel. E não houve dia semelhante a esse, nem antes, nem depois"
Arqueólogos e paleontólogos debruçaram-se sobre o enigma do umbigo de Adão e chegaram a conclusões surpreendentes. No mundo que  vivemos hoje, dominado pela descrença e desconsideração a Deus, ameaçado pela ciência que nega as palavras de Dele, afirmando blasfêmias como a teoria da evolução, dizendo que o homem descende de macacos, que a Terra é redonda, gira em volta do Sol, que o Universo surgiu de um "Big-bang", as pessoas ficam confusas. O livro sagrado tem sido ignorado. Há muito tempo, Deus, em sua infinita sabedoria, fica em dúvida sobre a lealdade dos homens. Em uma passagem famosa, precisou testar a fé de Abraão, ordenando que matasse seu único filho, Isaac. Abraão não vacilou, e quando desferia o golpe, foi detido pelo anjo do Senhor, que segurou sua mão com a faca assassina (episódio retratado acima por Caravaggio). Como a sabedoria de Deus não permite que Ele conheça a verdadeira devoção dos homens, precisa testá-los constantemente, como fez com Abraão. Assim, com esse mesmo propósito, Deus escondeu nas entranhas da Terra, restos falsos de animais que nunca existiram (dinossauros), de um tempo que nunca existiu, para testar a fé dos homens em suas palavras, registradas no livro sagrado. Quer dizer, ossos de dinossauro são uma farsa premeditada por Deus, fazendo parte de seu maravilhoso plano. O umbigo de Adão, embora desnecessário, é uma farsa semelhante. Maravilhosos são os mistérios de Deus.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Vida após a Morte

 
 


Não temo a morte. Estive morto por bilhões de anos antes de nascer, e não sofri nada por isso. O problema do conceito da vida após a morte é que tendemos a reduzir o valor que damos à vida no aqui e agora. Eu tenho um sentido de urgência em viver, que perde o sentido diante da vida eterna. Não quero que as pessoas chorem a minha morte, quando ela chegar; quero que celebrem a minha vida, enquanto existiu. Pois a vida é bela, frágil, fantástica e preciosa. E finita. A felicidade é o único bem. O tempo de ser feliz é agora.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A dieta dos dois dias

 
 

Ela chegou com tudo, está na moda e funciona mesmo. Você, que é inteligente e moderno, perca peso sem esforço, sem prejuízos à saúde. É muito simples, qualquer anta estúpida pode fazer. Escolha dois dias da semana para fazer jejum, nos outros cinco, pode comer à vontade. É uma dieta revolucionária. Com ela, você será um gordo infeliz apenas durante dois dias da semana. Em compensação, nos outros cinco dias, você será um gordo feliz e comilão. Que beleza! É melhor ser um gordo alegre por 5 dias do que um gordo triste a semana inteira.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Manifestações: O Primeiro Morto


É muito oportuno rever o filme Guerra dos Mundos, com Tom Cruise (2005), baseado no livro de H. G. Wells. O que ele me apresentou de mais apavorante, não foram os monstros extraterrestres, mas sim o comportamento desorganizado da multidão diante da falência das instituições, da ordem, do poder público constituído. Um cenário no qual uma pessoa mata outra pela posse de um carro, ou por um pão, sem medo de ser responsabilizada ou punida, pois o caos está instalado. Acuado pelo medo, um indivíduo até então "normal", avança o carro sobre manifestantes "pacíficos", provavelmente não porque deseja matá-los, mas sim porque não deseja morrer. Para quem acha que a polícia foi violenta, temos agora o primeiro morto nas manifestações, o estudante Marcos Delefrate de apenas 18 anos. Ele foi morto pela "pacífica" baderna, não pela "violenta" polícia.

 

domingo, 26 de maio de 2013

O Tiunfo da Morte : Pieter Brueguel

 
 
Obra inspirada pela precária condição humana, diante do inevitável desfecho, no século XVI.
Detalhes:


 

domingo, 19 de maio de 2013

Chico Buarque: Trocando em Miúdos (1978)



No Brasil, até o ano de 1977, quando foi legalizado o divórcio, as separações conjugais constituíam, no máximo em "desquite", que permitia a separação dos corpos, mantendo o vínculo matrimonial, conforme determinação da Santa Igreja, desde os tempos do Império no Brasil. Ou seja, há apenas uma geração, os casais eram regidos por leis inspiradas na religião dos tempos de D. João VI e D. Pedro I.  

Alguém se lembra do "É o Tchan"? E você, chegou também a cantar "...delícia! delícia! Assim você me mata! Ai, se eu te pego, ai, ai...", do Michel Teló? Essas porcarias proliferam como uma praga, e se propagam como uma epidemia de sarampo, com a mesma velocidade. Modismos que desaparecem tão rápido como surgiram, no esquecimento absoluto. Puro lixo consumido por retardados.
Muito diferente do que me lembro dos anos 70, quando esperávamos ansiosos pelos novos discos do Chico Buarque, com composições maravilhosas, que por gerações, ao contrário de Teló, continuarão sendo lembradas. Eram letras elegantes, simples e inteligentes, sofisticadas.
Talvez comemorando os avanços legais referentes ao divórcio, em 1978 Chico compôs "Trocando em miúdos", música na qual descreve as dores de uma separação, mas sem ar de tragédia como no passado, e sim como um acontecimento triste, a ser superado, conforme a mentalidade de então. Acontece que os censores da época, enxergavam códigos subversivos secretos em toda parte, e a música faz menção a um livro de Pablo Neruda: "Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu". Para quem não sabe, Neruda era poeta e diplomata chileno, comunista histórico; abriu mão da candidatura à presidência de seu país em favor de Salvador Allende, que após eleito, foi deposto e morto por Pinochet (o  homem mais injustiçado do século). O fato é, que essa simples menção a Neruda foi o suficiente para a censura proibir a canção. Ao tomar conhecimento do motivo estúpido da proibição, Chico argumentou com os censores que não havia risco nenhum de subversão, pois, conforme a própria música afirma, ela levou o livro, mas não leu. Para nossa alegria, a música foi então liberada.

sábado, 4 de maio de 2013

O Câncer é a tristeza das células



Pequenos trechos foram apresentados, mas nada se compara à declamação, na íntegra, pelo autor, ninguém menos que Vinícius de Moraes. Para quem tiver 12 minutos (e não for um idiota), uma experiência maravilhosa, sobre a vida e o medo de predê-la.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Confissões


De repente, uma imensa necessidade de me confessar. Não de obter perdão, estranhas que me são as idéias de deus ou pecado. Para mim pecado é sinônimo de afrodisíaco. Abro mão da justiça divina, em troca da realidade. Sou médico, não acredito em deus, acredito no Rivotril, por isso o prescrevo, ao invés de sugerir orações.
Hoje, preciso me confessar. Acho que já distribuí uma boa dose de amargura pela vida, e a todos a quem causei dor, a quem menti, enganei ou trai; gostaria que soubessem que o sofrimento que causei, com certeza não era minha intenção original, apenas um efeito colateral do fato de que, sendo humano, sou também fraco, imperfeito, inseguro, repleto de desejos indecentes, de controle precário. Deixo muito a desejar, principalmente para quem tem mania de felicidade; para quem presta atenção nas conversas de Ana Maria Braga com o Louro José.
No moderno confessionário (o consultório), muitos me procuram com a queixa de uma "falta de sentido na vida", sinal de inteligência e angústia, que compartilho. Sei bem qual é esse sabor. Não acho que isso seja um problema em si. Eu também não vejo sentido na vida, em deus ou na ciência. Idiotas adoram ídolos de gesso e idéias mitológicas (religiosas) infantis. Não entram em contato com o pavor do abismo e do vazio. Nas minhas noites de insônia e desalento, descobri que só consigo sentir sentido na arte, na beleza (que desesperadamente procuro) e na poesia (que me acalenta), é isso que tento levar a meus pacientes. É importante continuar de pé, mesmo sabendo-se finito, injusto, egoísta, mesquinho e covarde. Meus pacientes estão livres da tirania da felicidade. Santo Agostinho, me perdoe.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Suicidas ilustres (24): Kamikazes


Em uma passagem célebre do Livro Xógum, de James Clavell, o Inglês Blackthorne (Anjin-san), figura fictícia inspirada em William Adams, discute com sua tradutora, no Japão do século XVI, que se encontra numa situação insustentável, sem saída,  não sabendo o que fazer, ao que ela calmamente lhe responde: "Há uma solução muito fácil, Anjin-san. Morra. O senhor não é obrigado a suportar o insuportável".
Para os Samurais, a elite dos guerreiros japoneses, o  suicídio ritual (seppuku ou harakiri), fazia parte da rotina de seu treinamento e de sua realidade. Considerava-se mais digno acabar com a própria vida, do que continuar vivendo em desonra consigo ou com seu povo. Na Segunda Guerra, vimos japoneses suicidas, os famosos Kamikazes ("vento divino"), atirando seus aviões contra navios americanos . Sua morte em troca dos maiores danos ao inimigo.
São muitas as situações nas quais a morte é vista como vantajosa. Para acabar com um sofrimento insuportável, para causar dor a outra pessoa. Eu trabalho com pessoas com tendência ao suicídio, e aprendi que, se você conseguir acompanhá-las durante seu processo, essa idéia pode passar. E a vida pode voltar a ser boa. Por isso acho importante sempre falar abertamente sobre o suicídio. Uma conversa franca, pode ser preventiva.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Amor aos animais

As melhor descrição de amor aos animais que ouvi... 

 


 De um paciente: "Não acredito em Deus, Paraíso, ou vida eterna. Pudesse eu escolher uma companhia para passar a eternidade, após a morte, não seria qualquer parente ou amigo (embora eles tenham sido ótimos). Seria meu cãozinho, que já morreu há vários anos, e que ainda me faz falta todos os dias. Uma falta sem fim. Com ele eu passaria a vida eterna".
Me lembrou uma palestra de Renato Zamora Flores na qual ele expressou descrença pelas religiões argumentando algo assim: "Como posso acreditar que tenho uma alma, que viverá eternamente, e meus animais, não a têem? Como posso imaginar um Paraíso sem os bichos que amei? Para mim, o Paraíso seria reencontrar os animais que perdi, e viver para sempre com eles!"

domingo, 17 de março de 2013

Habemus Papam

 
Meu sono foi restaurado!
A humanidade é fraca. Como disse o apóstolo Paulo, vemos o mundo obscuramente, como se através de um espelho embaçado. Erramos, nos desviamos do certo, raciocinamos de uma maneira precária. Vivemos imersos no pecado, na impureza e na infâmia. Precisamos de ajuda, foi por isso que Deus nos enviou sua Igreja, seus profetas, os Santos, o Papa e o sacerdócio....  para nos orientar, porque nossos próprios recursos são falíveis e inadequados. Seja bem-vindo, Papa Francisco, seu rebanho, em júbilo o acolhe, em sua infalível humildade.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A morte de Hugo Chávez


Consternado, acompanho com tristeza os sentimentos de nossa grande líder, Dilma Roussef, que lamenta a morte desse outro grande líder, Hugo Chávez. Faço minhas as palavras de Dilma:  "Hoje lamentavelmente, infelizmente e com tristeza digo para vocês que morreu um grande latino-americano: o presidente da Venezuela Hugo Chávez. Deixa ele um vazio insubstituível na história das Américas. Comprometido com o desenvolvimento da América Latina, permanecerá sendo uma eterna referência a todo o povo americano."
Sem dúvida, um líder gigante. Idealizador do projeto bolivariano, invejável modelo de independência e progresso social e econômico (o moderno socialismo do século XXI), anti-imperialista por natureza, injustamente acusado de cubanizar seu país pelos neoliberais de plantão. Neste exato momento, outros líderes gigantes, como Evo Morales (da Bolívia), Rafael Correa (do Equador) e Cristina Kirchner (Argentina) dirigem-se para a Venezuela, afim de participar dos cortejos fúnebres. Consternado, Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, envia representantes e lamenta a morte de seu maior aliado no Ocidente.
O governo Venezuelano expulsou dois adidos aeronáuticos da embaixada dos Estados Unidos, Deblin Costal e David Delmonico. Suspeita-se que ambos estejam envolvidos com o macabro método, já denunciado por Chávez de, através de técnicas desconhecidas, inocular câncer em líderes latino-americanos comprometidos com projetos sociais bolivarianos humanista-cristãos de esquerda. A maldade dos norte-americanos imperialistas desconhece limites. Lula, suposta vítima do plano americano, conseguiu se salvar do câncer de laringe. Mas nem a medicina cubana, a mais avançada do mundo, conseguiu salvar Chávez (ele foi sábio em recusar o convite brasileiro de se tratar no hospital Sírio-Libanês, um hospital repleto de espiões capitalistas). Outras vítimas de inoculação de câncer teriam sido Fernando Lugo (do Paraguai), Cristina Kirchner (tumor em tireóide) e a própria Dilma, antes da posse. Hugo Chávez, além de grande líder agora é também um mártir.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Augusto dos Anjos: Versos Íntimos


Augusto dos Anjos. Nele, tudo é angústia: "Não existe mulher capaz de me amar", teria afirmado. Um dos poetas mais críticos e sombrios de seu tempo. Com o mestre Arthur Schopenhauer (abaixo), teria aprendido que a única saída para o homem seria a total aniquilação de seu desejo. Segundo Schopenheuer, todo sofrimento deriva do desejo. Eliminar o desejo, elimina o sofrimento. Parece que Augusto dos Anjos aprendeu bem a lição. A existência como tragédia, do nascimento à morte. Melancolia plena. Acho que a cara de seu mestre, de alguma forma influenciou sua triste posição diante da vida.
Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos)
Especialmente dedicado a Samir Arida, médico, ator, doutor da alegria, meu grande e querido amigo, com o qual descobri o amor pela poesia.
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Yoani Sánchez, Cuba e as fezes de Jesus


Só um maluco, se pudesse escolher um país onde nascer, preferiria Cuba aos EUA. Como estudioso do comportamento humano, estou me deliciando com as discussões a respeito da visita da blogueira cubana, Yoani Sánchez, ao Brasil. Legiões de idiotas fazem apologia ao regime mais ditatorial e infeliz das Américas. Apaixonadas discussões em jornais, revistas, programas de entrevistas, sempre rodeando o tema do suposto paraíso cubano, parecendo mais discussões de torcidas infantis de futebol de várzea, me fizeram lembrar de antigas discussões ocorridas na Idade Média, sobre temas ligados à santidade. Parece conversa de louco, coisa que eu adoro.
Naqueles tempos, muito se discutia sobre a humildade de Jesus, se ele possuía ou não as roupas que vestia, aqueles trapos, supostamente poderiam ser interpretadas como sinal de riqueza material, incompatível com seu amor pela pobreza. Pessoas eram queimadas vivas em fogueiras, caso discordassem da opinião das autoridades do momento. Tentava-se calcular quantas gotas de sangue teriam vertido durante seu martírio. Outro problema era relativo às fezes de Jesus. Uma vez que o filho do Homem habitava um corpo físico como os outros, discutia-se muito se suas fezes também federiam como as dos demais, ou se teriam um odor agradável, talvez floral, derivado de sua santidade. O que hoje parece inútil ou idiotice, ocupou as mentes mais privilegiadas da época, durante gerações sucessivas, em discussões teológicas infindáveis, que não chegavam a conclusão nenhuma, e para as quais ninguém mais liga...
Eu consigo imaginar um futuro no qual as acaloradas discussões de hoje sobre o fato de Cuba ser ou não um país maravilhoso, com um povo feliz ou não, serão lembradas como os exemplos medievais que citei; ou seja, discussões bizarras, inúteis, improdutivas e que, revelam muito mais a respeito da personalidade de quem argumenta do que sobre os fatos objetivos em si. Discussão entre lunáticos. Prato cheio para um psiquiatra.
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma Vênus moderna


Vou continuar neste assunto, que para mim tem sido mais interessante do que a renúncia do Papa. Mulheres bonitas são algo que os homens tem no pensamento o tempo todo, por isso lembrei das diversas deusas citadas, cada uma de um período diferente. Minha Vênus é a mesma de Jorge Amado: a eterna Gabriela, Sônia Braga. Uma mulher simples, franca, de sensualidade espontânea, sem necessidade de qualquer produção. Autenticidade pura. Sem frescura ou pretensa sofisticação. Que dispensa cremes, loções, tintas, roupas caras, usando apenas uma flor no lugar de jóias de valor. Uma mulher que acorda linda pela manhã. Porque quem precisa de produção para despertar a atenção dos homens, são os travestis que seduzem bêbados perdidos na madrugada da avenida Indianópolis.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Nascimento de Vênus- Sandro Botticelli


Pintura de Sandro Botticelli, do século XV, exposta em Florença. Época interessante na qual o interesse por Santos em martírios começava a mudar para mulheres nuas, pelo menos nas pinturas. Algumas pessoas mantém seus pensamentos em pureza e santidade até hoje, conheço vários casos; são doentes, claro, mas continuam sendo casos.
Representa a deusa do amor, que teóricamente deveria ser linda. Eu acho essa Vênus meio feinha, apesar de me parecer um avanço com relação às já citadas Vênus de Willendorf e de Milus. Nos dias de hoje, a mulher abaixo, a meu ver se aproxima mais de uma deusa nascendo do desejo masculino. Com toda a certeza a beleza está nos olhos de quem a vê, e não no objeto em si. Desculpem-me por chamar a mulher de objeto, mas na verdade os homens adoram pensar assim. Não acreditem nos que dizem o contrário, eles aprenderam que é mais fácil dizer o que as mulheres preferem ouvir... mentiras.

 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Vênus de Milo


Descoberta em 1820, atualmente no Louvre. Possívelmente dos séculos V ou IV aC. Mais moderna, já mostra sinais de emagrecimento em relação à Vênus anterior.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vênus de Willendorf



Repousou por 24mil anos, até ser descoberta por um arqueólogo em 1908, atualmente no Museu de História Natural de Viena. Faz muito tempo que os homens pensam na mesma coisa.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A renúncia do Papa


Sinal de incompetência, desinteresse ou simplesmente cansaço em representar uma figura anacrônica, um símbolo, no qual ninguém, nem mesmo ele, acredita? Não importa. O grande João Paulo II deixou um legado (político) magnífico, pôs abaixo o muro de Berlim e as ditaduras mais hipócritas da humanidade. Ratzinger pode ser um grande intelectual, mas sua ortodoxia está distante da realidade de um mundo que não acredita em nada do que ele prega. Catolicismo é religião de país pobre e de gente ignorante, não tão ignorante ao ponto de ser crente, mas alfabetizados ao ponto de serem espíritas ou protestantes (idiotas de outro tipo). O rebanho católico usa camisinha, usa anticoncepcional com alegria, faz muito sexo antes do casamento, trai seus parceiros sem culpa, separam-se quando querem, casam várias vezes, aceitam e respeitam os gays. E não estão nem aí para a infalibilidade papal. Sem contar a repugnância que ele insiste em gerar ao proteger seus amiguinhos pedófilos. Sua renúncia indica que seu papado foi derrotado pela História. A alegria de viver e a luz venceram o medo do escuro, do castigo, do pecado medievais.


Mas, cá entre nós... esse raio caindo sobre a basílica após a notícia da renúncia não parece a fúria de Deus... vai saber como Ele pretende se vingar de tamanha humilhação... Vou me cuidar enquanto é tempo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Tragédia de Santa Maria

 
 

A tragédia de Santa Maria, com a morte desnecessária de tantos jovens e de tantos sonhos, nos enchem de perplexidade e tristeza. Transcrevo abaixo o discurso do governador Keating, de Oklahoma, durante um funeral, após o atentado terrorista que matou mais de 200 pessoas. Sua fala, adequada neste triste momento, mostra como não existe medicação com o poder de uma palavra reparadora, seja a palavra carinhosa de uma mãe, o encorajamento de um pai, a sensatez de um líder religioso, o comentário apoiador de um terapeuta.

“Hoje sofremos juntos perante o mundo e perante o nosso Deus, nossos corações e nossas mãos unidos em uma solidariedade que estes criminosos nunca poderão entender. Permanecemos juntos no amor.
Por meio de tudo isto, através das lágrimas, da raiva justa, da tristeza que despedaça nossas almas, da preda incomensurável, algumas vezes nos sentimos sós. Mas nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Temos Deus e temos uns aos outros.
Hoje temos nossos heróis e nossas heroínas, santos em cinza e azul, e brancos e cáquis-os que resgataram e os que curaram. Eles trabalharam longa e nobremente e choraram conosco.
E hoje temos nosso Deus. Ele não é um Deus da vossa religião ou da minha, mas de todas as pessoas em todos os tempos.Ele é um Deus de amor, mas também de justiça. Hoje, Ele nos assegura mais uma vez, de que o bem é mais forte que o mal, que o amor é maior do que o ódio. Os milhares de nós juntos aqui hoje, somos multiplicados pelo amor de Deus, ungidos por sua suave clemência. Hoje estamos com Ele e uns com os outros.
É certo que choremos. Fomos todos tocados por essa imensa tragédia. E nossa tristeza é parte do processo de cura. Para alguns de nós, abatidos por intensa perda pessoal, será um longo e torturante caminho. Para todos nós é uma jornada através da escuridão. Mas a escuridão acaba na luz da manhã. Esta é a promessa de Deus e é nossa esperança.
Existe uma linda parábola de um homem que olhou para trás em sua vida e viu-a como uma série interminável de pegadas na areia. Às vezes, havia dois pares de pegadas lado a lado. E ele recordava aqueles tempos como tempos felizes. Outras vezes havia apenas um par de pegadas-tempos de tristeza e de dor. Ele confrontou Deus e perguntou-Lhe porque Ele tinha parado de andar ao seu lado quando ele mais precisava de Seu apoio. Porque, ele se perguntava, Deus o abandonara? E Deus respondeu: “Mas, meu filho, aqueles foram os tempos que eu o estava carregando”.
Ele nos carrega hoje, gentilmente aconchegados em seus braços carinhosos” 
(Extraído do New York Times; 26/04/1995)


 "O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor " (Jó; 1,21)