segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pacientes que não tive 31: Carlos Heitor Cony




Estive pensando sobre o que levaria uma pessoa a se atribuir o título de “imortal”. Entre algumas respostas interessantes, encontrei o fato de ela pertencer a um grupo no qual seus membros assim se proclamam, como a Academia Brasileira de Letras (ABL). De acordo com seu estatuto original, elaborado por Machado de Assis e Olavo Bilac, em 1897, ano de sua criação, a ABL tem como objetivo, “o cultivo da língua e da literatura nacional”. Para se tornar um imortal, de acordo com o mesmo estatuto, o indivíduo deve ter publicado “obras de reconhecido mérito, ou livros de incontestável valor literário”. Nas sessões solenes, nas quais vestem seus fardões bordados a ouro, os imortais ainda vivos se valem de seus notórios conhecimentos, para escolher novos imortais para ocuparem vagas dos imortais que morreram. Essas sábias escolhas não elegeram autores brasileiros notáveis como Vinícius de Moraes (um crime), Monteiro Lobaro, Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto, Cecília Meireles, Clarice Lispector e Erico Veríssimo. Os nobres membros da ABL, consideraram de maior valor as obras literárias de Ivo Pitanguy (cirurgião plástico que é referência mundial ...em medicina), Santos Dumont, José Sarney (escritor medíocre, mas “coronel” nordestino que intimida muita gente), Assis Chateaubriand (magnata das comunicações), Roberto Marinho (líder das organizações globo), acreditem: Getúlio Vargas; e o pior de todos: Paulo Coelho, campeão de vendas de lixo literário.
Carlos Heitor Cony, ocupa desde o ano 2000 a cadeira de número três. Conheço-o por ser assinante do Jornal Folha de São Paulo, onde ele escreve quase todos os dias. Foi lá que tomei conhecimento de sua acidez, seu mau-humor crônico, sua desesperança. É um homem idoso com um olhar amargurado sobre a vida. Não conheço (nem quero conhecer) sua biografia, sua trajetória pessoal, para que ele terminasse assim, tão pessimista e destrutivo. Um homem idoso repetindo diariamente aos leitores de todas as idades que a vida não é boa, que não tem beleza, que não vale ser vivida, a meu ver não deveria ganhar um espaço tão grande num jornal como a Folha. Entre as coisas bizarras que escreveu, encontra-se: “Nos passos de João de Deus”, estranha mistura de biografia, detalhamento de viagens e tributo deslumbrado a João Paulo 2°. Incômoda contradição de uma mente perturbada. Por um lado, adoração incondicional de um Papa muito mais “político”, do que “religioso”. Por outro lado, falta de amor à vida e à beleza, falta de entusiasmo pela juventude, tristeza e desesperança crônicas.
Um homem que deixou de acreditar em Deus, por causa do resultado de um jogo de futebol... mas idolatra Papas. Pois é, se a vida parece ser ruim, sua imortalidade, que elimina o suposto alívio da morte, a torna insuportavelmente pior. Sua amargura deve ser o motor que o leva a pronunciar repetidas inverdades sobre Inri Cristo, que é seu oposto: um exemplo de esperança, de vida, alegria. Muitos alegam que Inri Cristo, ao frequentar programas humorísticos ou de entrevistas, não é um homem sério. Entendo esta situação de uma maneira diversa. Essa é uma forma inteligente e descontraída de ser conhecido pelo público jovem, levando sua mensagem de amor, esperança e otimismo, tudo o que falta nas colunas amargas de Cony. Muito menos sérios são os critérios de escolha dos imortais da ABL. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coragem e covardia

Diante das muralhas de Tróia, sedento por vingança, o poderoso Aquiles desafia Heitor para uma batalha de vida ou morte. Todos sabem que Aquiles, filho de deuses que é, não será derrotado numa luta comum, desfecho desta já foi decretado por Zeus. Serenamente, Heitor fornece orientações à sua esposa, Andrómaca , pede que seu pai, Príamo, lhe perdoe por seus erros e lhe deseje sorte, empunha sua espada e parte para uma batalha de resultado conhecido. Ele sabe que vai morrer, que não há nada que possa ser feito para alterar este fato. Mesmo assim, segue adiante, sem esperança de manter qualquer coisa, além de sua honra. Ele lutará até a morte em defesa daqueles a quem ama, sem cenas, sem alarde e sem arrependimento. Simplesmente cumprirá o destino que lhe cabe. O último episódio da Ilíada, narra os funerais de Heitor, depois dos quais o destino de Tróia está selado. À imagem simbólica da morte do homem, segue-se a destruição de sua cidade.  
A beleza da tragédia grega, o que a torna tão familiar, é que entre seus personagens, como entre seus deuses, não existem bandidos nem mocinhos, vilões ou inocentes, bons ou maus, todos são movidos por interesses e emoções comuns, egoístas, vaidosas, mesquinhas. São humanos demais.

Heitor contrasta fortemente com Aquiles, pois lutava por Tróia, sua família, e sua honra. Já Aquiles lutava apenas pela glória. Existem pessoas que se identificam com Aquiles, admirando sua força incomparável, seu poder de sedução. Estes são os meninos, que sonham em ser fortes, querem ser como deuses, admirados e invejados... desejos naturais em meninos, seres incompletos que são, em formação, como todos nós já fomos um dia. Mas alguns já deixaram de sê-lo e se tornaram homens. Estes se reconhecem na figura de Heitor, que mesmo sabendo de seu trágico destino, dele não foge. Heitor é o adulto que enfrenta a batalha diária da vida, sem recuar, mesmo sabendo que no final será subjugado, morto, derrotado.  

Deixemos os gregos um pouco de lado para pensar nos Italianos. Sei que esse assunto já foi explorado à exaustão, mas não consigo resistir em comentá-lo, pois foi ele que me lembrou Heitor. Porque será que o comportamento covarde do Comandante Schettino, que se recusou a voltar a bordo do navio Costa Concordia, enquanto este afundava no mar Tirreno, em decorrência de sua própria incompetência e fanfarronice, nos choca tanto? Imagino que seja devido ao fato de que reconheçamos nossa própria fraqueza em seus atos, nossa covardia humana secreta, guardada a sete chaves. Por isso repetimos, gritando ao mundo, à imprensa, até em camisetas, nossa indignação oficializada na frase de Gregorio de Falco: “Volte para o navio, Caralho!”. Covarde é o outro, não eu, por isso preciso denunciá-lo, afinal, eu pertenço ao grupo dos bravos, me identifiquei com a figura de Heitor.

Estou com pena de Schettino. Aos 52 anos, um napolitano com perfil de bon-vivant, causou uma desgraça quando, após tomar umas taças de vinho a mais, decidiu exibir sua habilidades à bela Domnica Cemortan, de 25 anos, por quem nutria desejos pouco recomendáveis a homens como ele, casados. Como um menino que pega escondido o carro do pai para impressionar a namorada, deu no que deu. Se você não guarda nem um pouco de piedade por Schettino, não o culpo. Mas, voltando 3.200 anos no tempo, aos gregos de Homero, na IlÍada, a fundadora da literatura ocidental. Quero lembrá-lo que a guerra de Tróia, a maior travada até então, também foi causada pelo assanhamento masculino, essa incapacidade de alguns homens em resistir a um belo par de pernas. Páris, irmão de Heitor, encantou-se por Helena, a mais bela mortal. Mas, covarde que era, fugiu da luta com Menelau, marido humilhado e traído, causando a guerra que culminou na morte do corajoso Heitor. Repare em um detalhe: embora covarde, Páris não era burro. Treinou sua pontaria com arco e flecha e matou Aquiles, acertando-o no calcanhar, seu único ponto frágil, fechando o círculo.  

Para saber mais sobre Heitor ou Schettino, compare as duas postagens abaixo...

Coragem: Heitor enfrenta Aquiles

sábado, 21 de janeiro de 2012

Gravidez psicológica




Gravidez “psicológica”, pseudociese, é uma condição doentia reconhecida pela medicina. Costuma afetar mulheres muito problemáticas. Recentemente, ganhou notoriedade o caso da pedagoga Maria Verônica Santos, que afirmava estar grávida de quadrigêmeos, e posava alegremente para fotos, com uma barriga falsa, artificialmente gigantesca. Quem ela pensava que ia enganar? Até onde ela achou que chegaria? Não é preciso ser muito inteligente para perceber o quão grotesca é essa farsa. É um caso de uma mulher infeliz, que merece tratamento. Pseudociese não deve ser confundida com falsa notificação de gravidez, recurso muito comum, geralmente utilizado por mulheres frustradas, com o objetivo de chamar a atenção dos homens que perderam, ou simplesmente perturbá-los. Muitas tem objetivo de conseguir vantagens financeiras, o famoso golpe “do baú”, que garante o sustento de muita mulher incompetente, profissionais em viver disso. Doença e mau caráter são coisas diferentes. Condição biológica por natureza, a pseudociese acomete mulheres e animais. Já acompanhei alguns casos humanos. Curiosamente, em minha amostragem, ultimamente este fato tem sido mais comum em cadelas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Afortunada Morte



Em breve vou morrer, o que me torna afortunado.
A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer.

As pessoas potenciais, que poderiam ter nascido em meu lugar, mas jamais verão a luz do dia, são mais numerosas do que os grãos de areia em todas as praias do planeta. Esses fantasmas não nascidos, o conjunto de pessoas “possíveis” pelas combinações permitidas pelas moléculas de DNA, excede em muito as pessoas reais. Simplesmente existir já exige muita sorte. Depois de um sono não percebido de centenas de milhões de anos, contrariando possibilidades astronômicas, acordamos aqui. Como indivíduos únicos, somos abençoados por ter recebido o privilégio da oportunidade de compreender porque nossos olhos estão abertos, e porque eles veem o que veem, no curto espaço de tempo do qual dispõe, antes de se fecharem para sempre. Depois de dormir por 14 bilhões de anos sem sabê-lo, abrimos finalmente nossos improváveis olhos, que em poucos anos se fecharão de volta ao escuro atemporal. Antes que isso aconteça, nos compete desentorpecer os sentidos, imersos que estão no sedativo da rotina comum, anestesiados pelo aconchego da familiaridade, que oculta a maravilha da existência.

Viver é bom

domingo, 15 de janeiro de 2012

Crack e cracolândia.

 
Conhecer a cracolândia e seus moradores é fazer uma pequena visita ao inferno, ou ter a sensação de entrar num filme de horror “B”, daqueles em que o mundo está tomado por zumbis, entregue a mortos-vivos. Como resgatar um indivíduo que escolheu voluntáriamente o caminho da droga? Como fazer com que um sujeito deixe de lado a única coisa pela qual tem interesse e desejo na vida, pela qual abandonou família, trabalho e futuro?
Os defensores do programa de “redução de danos”, pessoal de mente aberta, diante de sua reconhecida impotência em impedir o uso da droga, propõe medidas que minimizem seus danos. Foram eles os responsáveis pela distribuição, com dinheiro público, de grandes quantidades de seringas em postos de saúde para que os dependentes pudessem fazer um uso “mais limpo” de suas drogas injetáveis prediletas. Enquanto isso, idosos diabéticos, que também necessitavam das mesmas seringas, não eram atendidos.
A estranha proposta dos “consultórios de rua”, consiste numa busca ativa de pacientes em potencial. Tem sido feita por agentes de saúde, na sua maior parte estudantes universitários contratados por ONGS terceirizadas. Em geral, pessoas em busca de trabalho temporário, sem vocação, preparo ou experiência; vestindo jalecos bem-passados, carregando pranchetinhas na mão, vendendo a ilusão de que estão criando vínculos para o resgate daqueles infelizes. Nesta abordagem invertida, eles vão atrás de pessoas que não querem se tratar.
A polícia tenta reprimir, mas é criticada por defensores dos direitos humanos; quando atua, é acusada de favorecer ações meramente “sanitárias”. Algumas autoridades afirmaram que causando dor e sofrimento, estimulam a busca por tratamento. A medicina quer tratar: para ela os drogados seriam doentes, vítimas passivas. Alguns propõe internar pessoas contra sua vontade em leitos de hospitais que não existem, com tratamentos comprovadamente ineficazes. Religiosos de várias correntes se misturam aos nóias, oferecendo-lhes o paraíso e a salvação; organizaram até uma “cristolândia” dentro da cracolândia. Os políticos, com sua fala fácil e segurança dos gestos de mão, garantem que amanhã estará tudo resolvido, graças à heroica intervenção de seu partido.
Para completar esse samba-do-criolo-doido, aconteceu ontem na cracolândia um churrascão, que reuniu ativistas “diferenciados”, nóias e moradores de rua, protestando contra “tudo isso que está aí”. E você? Tem alguma sugestão?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Você sabe com quem está falando?





Tive o prazer de conhecer pessoalmente o filósofo Mario Sergio Cortella, durante um evento médico, no qual ele foi expor uma visão muito particular com relação ao uso de drogas. Foi surpreendente. A melhor maneira de ser introduzido ao seu pensamento é assistindo a suas inesquecíveis palestras. Escolhi esta como exemplo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os Efêmeros: vida curta, pensamento sem limites.

A lenda nos conta sobre uma raça de insetos extraordinária, os Efêmeros, que habitam grandes florestas. Essas criaturas nobres foram abençoadas com grande inteligência, mas foram amaldiçoadas com vidas de duração muito curta, de apenas um dia. Para um Efêmero, a floresta parece eterna e imutável. Cada geração vivia sua breve vida sem jamais presenciar qualquer mudança em seu mundo frondoso. Um Efêmero não observa mudanças no tamanho e cor das árvores, ou do solo durante sua vida. Eles vivem sob a ilusão de um mundo estável, contínuo e imutável. 
Mas, observações cuidadosas e pensamento lógico, levaram alguns Efêmeros a postular que a floresta não era estática. Eles começaram a suspeitar que pequenos brotos verdes cresciam para se tornar enormes árvores, e que as árvores maduras, um dia morriam, tombando e sujando a floresta com troncos podres, que enriqueciam o solo para futuras árvores. Apesar de incapazes de testemunhar a transformação pessoalmente, os Efêmeros previram a existência de processos ligados à vida, se estendendo ao longo de muitos anos de incompreensão, por um período de tempo que ultrapassava suas existências individuais. Fazendo bom uso de suas mentes, conseguiram enxergar além do que seus sentidos básicos permitiam.  

Somos como os Efêmeros. Para nós, o Cosmos parece eterno e imutável: as visões do céu que temos à noite são quase sempre idênticas àquelas que eram vistas por nossos ancestrais, durante incontáveis gerações. Isto, no entanto, é uma ilusão, da qual o pensamento pode nos libertar. O universo está em constante mutação: nunca foi tão interessante estudar astronomia.
Temos uma vantagem sobre os Efêmeros que, de tão pequenos, só podiam ver umas poucas árvores, folhas, ramos e rochas. Os astrônomos hoje, são testemunhas de um número inacreditável de estrelas e outros objetos, em vários estágios de evolução. E embora não possamos observar diretamente a passagem de uma estrela de um estágio a outro, dado o tempo inimaginavelmente longo desse processo, vemos estrelas em estágios diversos da evolução estelar. Compreendendo a natureza da matéria, sua composição e comportamento, bem como as leis da física, começamos a adquirir um conhecimento mais claro de nosso lugar no Universo. Há poucos anos temos o privilégio de compreender o mundo e a vida de uma forma nunca antes imaginada. É impressionante o poder da mente em compreender, extrapolar, observar. Contemplar a história do universo, é um convite que nos inspira a pensar no nosso lugar dentro dele, e nos coloca na paradoxal condição de nos sentirmos ao mesmo tempo especiais e insignificantes. Perpetua a deliciosa e infantil capacidade de deslumbramento.

(Para estudar astronomia no computador, sugiro os programas Stellarium e Home Planet 3.3, que podem ser baixados gratuitamente no Baixaki).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 não será o fim do mundo.

Orgulho-me de receber esta maravilhosa mensagem de ano-novo diretamente do autor, e faço questão de compartilhá-la com meus amigos, pacientes e todos aqueles que ainda não acreditam. Fiquem em paz.

http://www.youtube.com/watch?v=-o4odQ2PxMg

(Acessem e assistam com a mente aberta, desarmados de ódios e preconceitos)