quarta-feira, 24 de abril de 2013

Confissões


De repente, uma imensa necessidade de me confessar. Não de obter perdão, estranhas que me são as idéias de deus ou pecado. Para mim pecado é sinônimo de afrodisíaco. Abro mão da justiça divina, em troca da realidade. Sou médico, não acredito em deus, acredito no Rivotril, por isso o prescrevo, ao invés de sugerir orações.
Hoje, preciso me confessar. Acho que já distribuí uma boa dose de amargura pela vida, e a todos a quem causei dor, a quem menti, enganei ou trai; gostaria que soubessem que o sofrimento que causei, com certeza não era minha intenção original, apenas um efeito colateral do fato de que, sendo humano, sou também fraco, imperfeito, inseguro, repleto de desejos indecentes, de controle precário. Deixo muito a desejar, principalmente para quem tem mania de felicidade; para quem presta atenção nas conversas de Ana Maria Braga com o Louro José.
No moderno confessionário (o consultório), muitos me procuram com a queixa de uma "falta de sentido na vida", sinal de inteligência e angústia, que compartilho. Sei bem qual é esse sabor. Não acho que isso seja um problema em si. Eu também não vejo sentido na vida, em deus ou na ciência. Idiotas adoram ídolos de gesso e idéias mitológicas (religiosas) infantis. Não entram em contato com o pavor do abismo e do vazio. Nas minhas noites de insônia e desalento, descobri que só consigo sentir sentido na arte, na beleza (que desesperadamente procuro) e na poesia (que me acalenta), é isso que tento levar a meus pacientes. É importante continuar de pé, mesmo sabendo-se finito, injusto, egoísta, mesquinho e covarde. Meus pacientes estão livres da tirania da felicidade. Santo Agostinho, me perdoe.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Suicidas ilustres (24): Kamikazes


Em uma passagem célebre do Livro Xógum, de James Clavell, o Inglês Blackthorne (Anjin-san), figura fictícia inspirada em William Adams, discute com sua tradutora, no Japão do século XVI, que se encontra numa situação insustentável, sem saída,  não sabendo o que fazer, ao que ela calmamente lhe responde: "Há uma solução muito fácil, Anjin-san. Morra. O senhor não é obrigado a suportar o insuportável".
Para os Samurais, a elite dos guerreiros japoneses, o  suicídio ritual (seppuku ou harakiri), fazia parte da rotina de seu treinamento e de sua realidade. Considerava-se mais digno acabar com a própria vida, do que continuar vivendo em desonra consigo ou com seu povo. Na Segunda Guerra, vimos japoneses suicidas, os famosos Kamikazes ("vento divino"), atirando seus aviões contra navios americanos . Sua morte em troca dos maiores danos ao inimigo.
São muitas as situações nas quais a morte é vista como vantajosa. Para acabar com um sofrimento insuportável, para causar dor a outra pessoa. Eu trabalho com pessoas com tendência ao suicídio, e aprendi que, se você conseguir acompanhá-las durante seu processo, essa idéia pode passar. E a vida pode voltar a ser boa. Por isso acho importante sempre falar abertamente sobre o suicídio. Uma conversa franca, pode ser preventiva.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Amor aos animais

As melhor descrição de amor aos animais que ouvi... 

 


 De um paciente: "Não acredito em Deus, Paraíso, ou vida eterna. Pudesse eu escolher uma companhia para passar a eternidade, após a morte, não seria qualquer parente ou amigo (embora eles tenham sido ótimos). Seria meu cãozinho, que já morreu há vários anos, e que ainda me faz falta todos os dias. Uma falta sem fim. Com ele eu passaria a vida eterna".
Me lembrou uma palestra de Renato Zamora Flores na qual ele expressou descrença pelas religiões argumentando algo assim: "Como posso acreditar que tenho uma alma, que viverá eternamente, e meus animais, não a têem? Como posso imaginar um Paraíso sem os bichos que amei? Para mim, o Paraíso seria reencontrar os animais que perdi, e viver para sempre com eles!"