quarta-feira, 30 de junho de 2010

Traição: o homem é sempre o culpado

É indiscutível que, nas últimas décadas, houve uma transformação profunda nas relações conjugais e no comportamento sexual da sociedade.No entanto, na questão da infidelidade, ainda existe um privilégio masculino. O homem é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição.A mulher, até mesmo quando trai, assume a posição de vítima. Entre indivíduos das classes médias do Rio de Janeiro, 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem traído seus parceiros. Apesar de estarem quase empatados, eles e elas apresentam motivos bem diferentes para trair. Homens dizem que amam e desejam as esposas, mas não resistem ao instinto, à aventura, atração, vontade, oportunidade, vocação. Mulheres dizem que traíram por insatisfação com o parceiro, autoestima baixa, vingança ao ter sido traída, por não se sentir mais desejada pelo marido ou por falta de atenção, conversa, carinho, romance, intimidade. Homens se justificam por meio de uma suposta natureza propensa à infidelidade. Mulheres dizem que seus parceiros, com suas inúmeras faltas, são os verdadeiros responsáveis por suas traições.Portanto, a culpa é sempre do homem, seja por sua natureza incontrolável que o impele a ser infiel, seja por seus defeitos que causam a infidelidade feminina.
O discurso de vítima de muitas mulheres, não se assumindo como responsáveis pelos próprios desejos, reforça a lógica da dominação masculina em nossa cultura.

Extraído da Folha de São Paulo, caderno equilíbrio, ontem (autoria de Mirian Goldenberg)

sábado, 26 de junho de 2010

Suicidas ilustres 05: Ana Karenina

Ficção. O drama se passa na Rússia, final do século XIX. Ana Karenina, esposa de um frio aristocrata moscovita, arrisca a saúde, a estabilidade social e a guarda do filho ao se envolver em um caso extraconjugal. Cheia de idéias e questionamentos a respeito da vida, de espírito intenso, confuso e atormentado, ela se apaixona por um oficial de cavalaria que reúne em si atributos sedutores, é jovem, atraente, rico, levando uma vida fácil, cheia de prazeres. Tolstói nos mostra como eles se tornam vítimas de suas próprias escolhas, reconhecem seus erros mas, sem forças para reagir, sucumbem ao desespero. Ele nos mostra essa relação como a primeira etapa, negativa ainda, de um suposto processo de elevação moral que só é alcançado pelo outro casal da trama. Liêvin, um homem simples, carente, rejeitado, se casa com Kitty, jovem sadia e confiante. Eles não carregam a carga dolorosa do primeiro casal e descobrem a tempo a banalidade do mundo de fáceis triunfos, representando a maturidade dos casais mais capacitados para a felicidade. Pessoalmente, senti-me mais atraído pelas questões e relação do casal que termina em tragédia, o outro me parece muito mais ligado ao plano do ideal do que ao real. Schopenhauer explica o porquê.
O cinema realizou cinco versões da obra, a primeira em 1927, e a mais recente em 1997, que teve a feliz particularidade de usar a maravilhosa música de Tchaikovsky, contemporâneo de Ana Karenina e de Tolstói. Recomendo o livro.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Carpe Diem

"Aproveita o dia"
"...quam minimum credula posterum!" (e confia o mínimo possível nos dias posteriores!)
Assim soa a famosa citação completa do poeta romano Horácio. Marca o fim de um poema em que ele adverte o fictício Leucônoe contra o futuro. Deve viver de forma sensata o presente, e utilizar bem o seu tempo. O lema sempre foi retomado, por exemplo, no barroco pelo poeta Martin Opitz (1597-1639), que intitulou um de seus poemas dessa forma, como no belíssimo filme "A sociedade dos poetas mortos", de 1989, onde os fãs do seriado "House" podem admirar o início da carreira do dr. James Wilson, interpretado por Robert Sean Leonard, ainda adolescente.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pacientes que não tive 03: Leon Tolstói

1875. Numa pequena aldeia na Rússia, nada acontece que altere a rotina e sacuda o marasmo do povo. Todo o divertimento consiste em observar a linha do trem que, vez ou outra passa, muito raramente deixando alguém. Um dia a aldeia se agita, sangue corre nos trilhos. Uma mulher, amante de um homem poderoso da aldeia de Iássienki, desesperada com sua vida amorosa, joga-se na frente do trem, dando fim à própria vida. Tolstói, com mórbida curiosidade, corre à vila para ver o cadáver, assiste à necropsia dele, investiga as causas que levaram uma dama a morrer de modo tão trágico. Essa é a fonte da qual irá surgir o maravilhoso romance “Ana Karênina”.
Tolstói foi um sujeito estranho. Nascido na vila citada em 1828, teve uma educação formal sofisticada. Estudou letras orientais e Direito, não se destacava como bom aluno, mas sim como farrista e namorador. Entrou para o exército, combateu na guerra da Criméia, viajou pela Europa antes de retornar a sua aldeia. Era um espírito inquieto, insatisfeito, perturbado pela busca sem fim do sentido da vida. Atormentado por questões existenciais, estudou religiões, se isolou num mosteiro. Indiferente a críticas e elogios, se afastava da aristocracia, nunca gostou da hipocrisia dos salões. Ocidentalista convicto, criticava o isolamento russo, o que lhe causou grandes problemas com o governo czarista.Em seus livros, demonstrou profundo conhecimento dos meandros da alma humana, em descrições inesquecíveis dos estados psicológicos dos protagonistas.
Mas também tinha algumas idéias estranhas: pregou a abstinência sexual entre casais na “Sonata a Kreutzer” de 1889, ao mesmo tempo que nascia seu 13º filho... Recusava os serviços dos criados, não queria ter servos. Tentou viver como um mendingo, até ser desmascarado. Foi impedido pela família a se desfazer de suas posses, como queria. Calado pelo governo, excomungado pela Igreja, criticado pela família, fugiu de tudo, morrendo em 1910, próximo da aldeia que o inspirou.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Religião, o inimigo de Freud.

"Já uma vez antes, como crianças de tenra idade, nos encontramos em semelhante estado de desamparo, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, contudo estávamos certos de sua proteção. Com relação à distribuição dos destinos, persiste a desagradável suspeita de que a pereplexidade e o desamparo da raça humana não podem ser remediados. Isto justifica o anseio do homem pelo pai e pelos deuses, que mantém sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, particularmente a demonstrada pela morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida lhe impôs. Assim se criou a religião, da necessidade que tem o homem de tolerar o desamparo, e construída com o material das lembranças do desamparo de sua própria infancia, na continuação de um protótipo infantil universal."
(Sigmund Freud, O Futuro de uma Ilusão)
"[É] possível atrever-se a considerar a neurose obsessiva como o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma forma de religiosidade individual, e a religião como uma neurose obsessiva cultural."
(Sigmund Freud, Atos obsessivos e práticas religiosas)

domingo, 20 de junho de 2010

Suicidas ilustres 04: Robert Dwyer

Em 22 de janeiro de 1987, após ser condenado a 55 anos de prisão por corrupção (era Secretário da Fazenda), o político da Pensilvânia, pai de dois filhos, convocou a imprensa para uma entrevista em seu gabinete, alegou inocência, e frente às câmeras e dezenas de repórteres, sacou um revólver, enfiou o cano na boca e disparou, explodindo seus miolos diante de milhões de telespectadores.
Seu gesto inspirou a banda de rock Filter a gravar uma música, que logo virou sucesso, intitulada "Hey Man Nice Shot" (Ei, cara, belo tiro!).
Outras bandas fizeram o mesmo, entre elas Faith No More ("The World Is Yours"), Ice Cube ("Gangsta Rap Made Me Do It"), Ion Dissonance ("The Bud Dwyer Effect"), Like Nomads ("Nice Shot Budd Dwyer"), Necro ("You Did It"), Marilyn Manson ("Get Your Gunn") and Rapeman ("Budd ep").
Lamentávelmente existe uma mórbida afinidade entre roqueiros e suicídios, como veremos depois.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Coisa de louco: Romênia

O país tem esse nome por já ter sido “terra de romanos”, sofreu disputas territoriais entre turcos otomanos, russos e Habsburgos. Local tenebroso, a Transilvânia é a terra de Conde Drácula, e recentemente parecia mesmo um hospício. Encontra-se no fundo do poço da Europa, com índices sociais inferiores aos da Líbia, PIB per capita abaixo ao da Namíbia. Dez por cento da população são ciganos analfabetos. Nicolae Ceausesco, governando de 1965 a 1989, achou que uma solução seria o aumento da população. Assim, proibiu todos os métodos anticoncepcionais e de controle de natalidade. Mulheres em idade fértil eram obrigadas a se submeter a exames médicos periódicos a fim de que não fosse possível esconder uma gravidez, pois o aborto também era proibido. Os médicos em cujos distritos se constatava redução da taxa de natalidade tinham cortes nos salários. Isso se deu, repare, na mesma época da revolução social, sexual, de costumes do ocidente. O povo era obrigado a usar lâmpadas de 40 watts em casa, para economizar. A obrigação de trabalho medieval da corvéia (aos domingos e feriados) ainda existia. Durante a II Guerra, os romenos foram tão sádicos no tratamento dispensado aos judeus, que até os alemães reclamaram. Em 2001 carros puxados por cavalos eram mais numerosos do que os a gasolina, existia um programa oficial do governo para substituir carros por carroças.
Ceaussescu foi executado no Natal de 1989.

Baseado no livro "Reflexões Sobre um Século Esquecido" do historiador Tony Judt, recém-lançado no Brasil

sábado, 12 de junho de 2010

Pacientes que não tive 02: Schopenhauer

Schopenhauer. Meu filósofo favorito (1788-1860). Absoluta e constantemente pessimista, já me fez pensar que a depressão não deveria ser considerada uma doença, mas sim um sinal de inteligência ou lucidez.

“Podemos classificar a vida como um episódio que perturba inutilmente a bem-aventurada tranqüilidade do nada. A existência humana deve ser alguma espécie de equívoco, pois se hoje já é ruim, a cada dia torna-se pior, até que o pior do pior aconteça. A vida é tão desolada, curta e duvidosa, que não vale grandes esforços, é mantida por ilusões. Se a existência fosse uma condição agradável, todos relutariam em entregar-se ao estado de inconsciência do sono e dele despertariam com alegria. Mas acontece justamente o contrário. As pessoas anseiam pela hora de dormir e, pela manhã, despertam contrariadas.” Permaneceu solteiro, pois “casar significa fazer todo o possível para tornar-se objeto de uma aversão recíproca”. Acreditava que o desejo nos movia em direção à melancolia o que, dizia, ficava claro na lassidão dos casais após o sexo: “Imediatamente após a cópula, ouvem-se as gargalhadas do Diabo”. Pensar no resultado de tratá-lo é interessante... O quanto ele poderia melhorar, e o quanto me deixaria pior? Com essa cara feia assim, sei não...

Suicidas Ilustres 03: Alfredo (ninguém sabe de quê)

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Ligou o gás, o coitado
Último gás do bujão
Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação

Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar
Quase nada
Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond
Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver
Embaixo assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê

“Coitado do 'seu' Alfredo, me lembro tão bem dele... Vizinho do lado, como diz a canção. Omisso, humilde... Parecia não ter passado, nem presente, nem futuro. Uma dessas figuras com  as quais a vida não teve nenhuma complacência. Um solitário total. Eu não sabia até que ponto, até o ponto que o levou a se matar" (Vinícius de Moraes)

Para ouvir a música:
http://www.youtube.com/watch?v=N8eOUR9UiuM&feature=related

Homenagem a todos os Alfredos que tenho conhecido.
Porque em verdade, ao contrário do que pensam, eles não estão sós.
(Dr. Mauricio)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Chapéuzinho Vermelho

-Que orelhas enormes a Sra. Tem, Vovó...
-São para te ouvir melhor, minha netinha!
-Para que é esse nariz enorme?
-Prá te cheirar melhor, queridinha...
-E para que é essa boca enorme?
-Prá te COMER melhor, minha linda !!!

Quando Chapéuzinho sai da segurança de sua casa para a floresta, recebe um aviso de sua mãe, para que siga pelo caminho seguro, e não se desvie, pois ela conhece bem os perigos que rondam sua ingenuidade, sabe do risco representado por lobos educados, de fala mansa. Ao encontrar o lobo na floresta, este não pode devorá-la, pois há lenhadores nas redondezas. Na presença de adultos responsáveis, o lobo nada tenta, astutamente perguntando então para onde ela vai, a fim de segui-la. Desvia sua atenção para as belezas da natureza, com intuito de distraí-la e atrasá-la. Despreocupada, Chapéuzinho se atrasa e chega depois que vovó já foi devorada pelo lobo, que a aguarda.
É então que acontece o interessante duelo verbal a respeito de partes grandes e peludas do corpo do Lobo Mau. São verdadeiras preliminares, nas quais o que seduz não são os atributos físicos, mas sim as intenções ocultas dele. Intrigada pelo desejo do lobo, a criança se fascina com a intuição de que existe algo de muito interessante que anima o mundo dos adultos, algo relacionado com o perigo que as meninas inocentes correm, quando, apesar de virtuosas e obedientes, se descuidam dos conselhos da mãe, ou se desviam do caminho traçado. Agora não há adultos responsáveis por perto para protegê-la, nem mãe, nem avó, nem lenhador. Há algo de misterioso no lobo que a atrai, é por isso que ele é tão perigoso. Sua mãe já sabia disso. Na verdade não só sabia, como também o previra e queria evitá-lo, o que é inútil, pois esse encontro está fadado a algum dia,fatalmente acontecer. No final, Chapéuzinho é retirada de dentro da barriga do lobo pelo lenhador.

No conto, são descritas três gerações femininas: filha, mãe e avó. A figura do pai não é diretamente mencionada, embora presente, de forma velada em suas duas fortes naturezas opostas e contraditórias. A versão responsável, respeitosa e salvadora (o lenhador); e seu oposto, perigoso, sedutor, inaceitável, o lobo. Todo homem, dentre eles o pai, carrega um animal escondido dentro de si. A criança tenta decodificar o código de organização sexual secreto dos adultos. Quem pode casar com quem? Porque vovó e as crianças estão excluídos? Qual o Caminho seguro?
Uma crise existencial é ultrapassada. Chapéuzinho Vermelho perde a inocência infantil quando se encontra com os perigos do mundo (e de dentro de si mesma), cai na conversa do lobo e é devorada; mas renasce, ao ser retirada de barriga dele pelo lenhador: não como a criança que era, mas como a donzela que se tornou.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A imensa distância entre discurso e fato.

O mundo não é bom. É um lugar hostil, no qual temos de lutar incessantemente pela sobrevivência, que se faz às custas da morte de outros. É um lugar onde sobrevivem os mais fortes, astutos e inteligentes. Não há lugar para os fracos. Embora não seja bom, o mundo também não é mau. Simplesmente ele é indiferente. Indiferente ao sofrimento das criaturas. Não é nada amoroso. Por isso que se fala tanto em filosofias de piedade e amor ao próximo. É evidente que se esse amor existisse mesmo, não se precisaria fazer tanta demagogia ou alarde a respeito de sua existência ou valor.

“Tantos escravos foram embarcados na ilha de Moçambique que um tronco de mármore foi erguido na praia, diante do palácio. Era ali que o bispo se postava, diante dos escravos acorrentados, sacudindo as mãos para convertê-los ao Cristianismo. Assim, se morressem na viagem, antes de chegar à América, iriam para o Céu. Era uma prudente precaução, porque os navios partiam tão atulhados que trinta a quarenta por cento dos escravos morria. Seus corpos eram jogados ao mar. Mas todos, graças a Deus, teriam o privilégio de morrer como bons cristãos.”

Entre haspas, trecho extraído do romance "Os Rebeldes", de James A. Michener, do qual sou fã, autor dos melhores romances históricos que li, e que recomendo a todos.

domingo, 6 de junho de 2010

Suicidas ilustres 02: Primo Levi

Trabalhando em pronto-socorro às margens da rodovia Anchieta, tive a infeliz oportunidade de testemunhar a reação de pessoas que, sobrevivendo a graves acidentes, testemunharam a morte inesperada de parentes próximos, algumas vezes de toda a família. Incapazes de lidar com o absurdo da situação, de por puro acaso continuarem vivendo, começam a se questionar “porque eu?”, “em que fui melhor do que os outros para escapar?”, “que fiz para merecer mais?”. Essas pessoas podem passar anos, décadas, não apenas se questionando, mas sentindo-se culpadas por terem sobrevivido, culpadas por viver, culpadas por sentirem prazeres que foram negados a seus entes queridos.

Primo Levi, escritor italiano, foi um dos 23 sobreviventes entre os 649 judeus que foram encaminhados para Auschwitz com ele em abril de 1944. Libertado em janeiro de 1945, perambulou durante o ano pela Europa oriental, retornando a Turim. Sua trajetória então, foi representativa de um sobrevivente. Em seus livros, denunciava os acontecimentos dos campos. No início, as pessoas, fartas de tanto sofrimento, não queriam escutar. Assim se confirmou o terrível sonho premonitório das vítimas: que ninguém as ouviria, e se ouvissem, não acreditariam. Quando começou a ser ouvido, passou a ser atormentado pela vergonha e pela culpa de ter sobrevivido, agravada em seu caso pelo constrangimento da fama. Suas palavras:
“Nós, que sobrevivemos aos campos, não somos as verdadeiras testemunhas. Esta é uma idéia incômoda que passei aos poucos a aceitar, ao ler o que os outros sobreviventes escreveram, inclusive eu mesmo, quando releio meus textos após alguns anos. Nós, sobreviventes, somos uma minoria não só minúscula, como também anômala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo do poço. Os que o fizeram, e viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram mudos”

Em 1987, aos 68 anos, depressivo, telefonou ao Rabino da sinagoga de Roma, confidenciando suas angústias e motivos. Cometeu o suicídio atirando-se do terceiro andar do prédio onde nasceu e no qual morou por toda a vida.

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.

(Vinícius de Moraes)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Suicidas ilustres 01: Nero

Nero, ou Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus, imperador romano de 37 a 68 d.C., mostrou-se cruel e depravado. Condenou o filósofo Sêneca à morte. Obrigou sua mãe, Agripina, que foi também sua amante, a cometer suicídio. Sua segunda mulher, Popéia, foi morta a pontapés durante a gravidez. Com alguns remorsos, após tentar transformá-la em deusa, conheceu um liberto chamado Sporus que se assemelhava à esposa assassinada. Mandou castrá-lo, vestirem-lhe roupas de imperatriz e casou-se publicamente com ele. Andavam ambos numa liteira: ele de imperador, e o escravo travestido. Mandou queimar Roma, cujo incêndio assistiu de longe ao som da lira e de versos que ele mesmo compusera. Gostava de iluminar os jardins de seu palácio com cristãos queimando como tochas.
Após 13 anos de governo, diante de revolta popular e de ser declarado inimigo público pelo senado, cometeu suicídio apunhalando-se após dizer: “Que grande artista o mundo vai perder!”

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pacientes que não tive 01: Gauguin

Em 08/05/1903, o bispo das Ilhas Marquesas, pouco caridosamente, testemunhou a morte de “um artista conhecido, porém inimigo de Deus”. Era o fim de Paul Gauguin, aos 54 anos , solitário, pobre e sifilítico numa cela de prisão.
Artista tão pouco convencional em sua arte como em sua vida, aos 35 anos abandonou uma respeitável e próspera carreira na bolsa de valores, sua esposa e seus cinco filhos, trocando a segurança material na França, por uma vida cheia de contradições e episódios apaixonantes nos mares do Pacífico sul. O desejo de liberdade no plano artístico e no existencial o marginalizou da sociedade. Não se adaptava aos rígidos hábitos vitorianos, nem à sua hipocrisia. Decidiu viver como “um nativo”. Viveu na Bretanha, no Panamá e Taiti, buscando uma vida tranqüila e paradisíaca, junto a culturas primitivas, “puras”, intocadas pela sociedade “civilizada”.
Na evolução de seu estilo, percebemos um abandono gradual das paisagens por um interesse progressivo em figuras humanas, femininas, morenas, nuas. Ele pintou Annah, a Javanesca, uma “exuberante mulata de olhos incandescentes”. Em 1892, retratou sua nova mulher, Teha’amana, uma silvícola de 13 anos, nua, maravilhosamente esparramada na cama.
Empregou um colorido vibrante, irreal, para expressar, com emoção intensa, a beleza e os mistérios vivenciados. Ao saber da morte de sua distante filha, Aline, aos 20 anos, entrou num período sombrio, triste, durante o qual criou a obra-prima “De onde viemos? Que somos? Para onde vamos?” (1897), seu testamento artístico final, questionando a finalidade da existência humana. Doente, empobrecido, tentou o suicídio ingerindo arsênico. Morreu solitário, de sífilis, cumprindo pena por atos obscenos, na prisão.