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segunda-feira, 4 de março de 2013

Augusto dos Anjos: Versos Íntimos


Augusto dos Anjos. Nele, tudo é angústia: "Não existe mulher capaz de me amar", teria afirmado. Um dos poetas mais críticos e sombrios de seu tempo. Com o mestre Arthur Schopenhauer (abaixo), teria aprendido que a única saída para o homem seria a total aniquilação de seu desejo. Segundo Schopenheuer, todo sofrimento deriva do desejo. Eliminar o desejo, elimina o sofrimento. Parece que Augusto dos Anjos aprendeu bem a lição. A existência como tragédia, do nascimento à morte. Melancolia plena. Acho que a cara de seu mestre, de alguma forma influenciou sua triste posição diante da vida.
Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
(Augusto dos Anjos)
Especialmente dedicado a Samir Arida, médico, ator, doutor da alegria, meu grande e querido amigo, com o qual descobri o amor pela poesia.
 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A desvantagem do otimismo


Ao contrário do que sugere a literatura barata de auto-ajuda, acho que o otimismo é o maior inimigo do sucesso. Estudo publicado em 2007 no “Journal of Economics Financial” revela que pessoas otimistas tem maior probabilidade de fumar e costumam trabalhar menos.

A maioria das pessoas pensa que o futuro será melhor, o que pode ser desastroso. A pessoa cria falsas expectativas, subestima riscos e aumenta a chance de se frustrar. Schopenhauer, meu filósofo predileto, o maior pessimista que já conheci (sua leitura deveria ser proibida para depressivos), no século XIX já dizia, que estamos no pior dos mundos, e que nada pode ser feito a respeito disso. Antecipava assim, a psicanálise de Freud, para quem o mundo não é mau, nem bom, mas apenas indiferente ao sofrimento ou alegrias humanos. O pessimista não tem por que se suicidar, uma vez que convive com a idéia que o mundo é ruim. Já o otimista, para o qual o mundo é bom, não está preparado para a contrariedade, quando esta chegar. Por isso que fazer psicoterapia não costuma ser gostoso, pois seu objetivo é nos preparar melhor para as adversidades. Muitas vezes, aquilo que as pessoas consideram triste ou depressivo não passa de puro realismo. A não ser que se acredite em Papai-Noel, aí é outra estória...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Branca de Neve e a Madrasta

Nasce um bebê. Aquele que se torna objeto da adoração dos pais, que nele tudo investem, está predestinado a substituí-los no futuro, ocupando seu espaço. Isso acontece de forma particularmente dolorosa para as mulheres, como ilustra a fábula de Branca de Neve, um conto antigo, cuja narrativa remonta a séculos na Europa, sendo sua versão cinematográfica dos estúdios Disney, de 1937, a mais conhecida. Seu título moderno é infeliz ao enfatizar os anões, quando o centro da atenção seria o destronamento da madrasta (ao lado) que envelhece, enlouquecida de ciúme, ante o desabrochar da beleza e juventude da filha. É um tratado sobre a tragédia feminina, os poderes, perigos e magia da beleza da mulher e da ruína que ronda o descontrole sobre as paixões, o aniquilamento do ser ante a negação do envelhecimento, da substituição, da finitude. A estória explora os poderes femininos em três gerações. A puberdade, cujo fascínio adolescente repousa inerte, passivo, desarmado, à mercê de nossa idealização, adormecido na caixa de vidro à espera do príncipe. A fase adulta da madrasta, que sabendo-se a mais bela de todas, poderosa, sedutora e desejável, não cansa de repetir a mesma pergunta ao espelho, possível olhar masculino presente na intimidade de seu quarto. Qual a mulher que se cansa de ser admirada? Todos conhecem moças que nunca param de perguntar se ainda são amadas, não adianta repetir isso mil vezes. E por fim, a bruxa, que despojada dos atrativos físicos da juventude possui outros feitiços...

Quando nasce Branca de Neve, sua mãe providencialmente morre para ser substituída pela madrasta, a quem estão todos autorizados a odiar (quem agüenta odiar a própria mãe?). Assim, a madrasta, o espelho na parede e o caçador são os pais disfarçados. Por mais poderosa que seja, a madrasta não convence o caçador a matar Branca de Neve (ele a abandona na floresta), nem consegue manter para sempre a atenção do espelho, que tudo sabe e nunca mente. Não há espaço para duas mulheres desejáveis na família, uma deverá sair. Quem são os anões? Criaturas pré-púberes (pré-edípicas), com o tamanho de crianças e barbas de velhos, ambos excluídos do jogo sexual, não representando perigo algum à inocência de Branca de Neve, companheiros de infância, advertem-na dos perigos da bruxa, sem sucesso, pois suas visitas (da Bruxa) despertam elementos sexuais reprimidos, representados pela maçã envenenada. A incapacidade de Branca de Neve em resistir à tentação a torna mais humana, seu desmaio simboliza o esmagamento ante desejos conflitantes, e seu sono letárgico, uma morte simbólica, um rito de passagem, do qual ela desperta, de indefesa, para uma nova existência, poderosa.

...e todos vivem felizes para sempre? Nada disso, a seu tempo a tragédia se abaterá sobre Branca de Neve exatamente do mesmo jeito, quando o espelho anunciar mais um destronamento. Mas desse fato as crianças são poupadas. Schopenhauer e seus seguidores, infelizmente não.